25 de abril de 2016

Gaja


Encontrar com produtores de vinho é algo que particularmente me agrada. Nesses momentos conseguimos entender melhor o produto, e dependendo do viticultor, muito além do simples processo de criação.

Angelo Gaja sempre esteve num patamar diferente para mim. Conhecido no mundo do vinho pelo seu bom humor e carisma, o homem que revolucionou a vitivinicultura do Piemonte é de uma modéstia sem par.

Signore Gaja evoluiu à espelho de seus vinhos, que por diversas vezes estão prontos para serem bebidos, mas que reservam momentos de sublime prazer àqueles que possuem o dom da paciência. 

Pois bem, com um misto de ansiedade e expectativa positiva, tive o privilégio de conhecê-lo recentemente, no auge de seus 76 anos.
Homem simples, intimamente ligado à terra e aos valores familiares, diversas vezes em sua explanação fez questão de mencionar a esposa, as duas filhas (Gaia e Rosana) e o filho mais novo, de 23 anos, que em breve se juntará ao lavoro na vinícola. 
Rouco, o que não o impediu de falar, Angelo ressaltou que esteve em outras oportunidades no Brasil, mas que só conhecia São Paulo e Rio de Janeiro. Desta feita, iniciou sua peregrinação no sul do país, onde conheceu os vinhedos de São Joaquim. Exaltou a vocação brasileira para fazer espumantes e apontou os principais perigos à viticultura local, como as geadas e o ataque de pássaros aos vinhedos. Apontou que o Brasil pode tornar-se líder na produção de espumantes de qualidade no Hemisfério Sul, basta que os esforços sejam direcionados.

Exímio contador de histórias, Angelo Gaja brindou-nos com várias, enquanto discorria sobre suas práticas atuais nos vinhedos, entre elas, a utilização de humos de minhoca vermelha(50 toneladas produzidas por ano!), flores entre as linhas de cultivo e até abelhas, por insistência das filhas. Explicou que as mesmas não prosperam em ambientes insalubres. Só queixou-se, entre risos, de não poder rotular o mel produzido com o nome Gaja...

Introduziu-nos a palavra resilienza, princípio utilizado nos vinhedos. A tradução refere-se à capacidade de adaptação à mudanças e capacidade de se recobrar, de voltar a forma original. Com as novas práticas utilizadas, levantou a questão de que "não sabia se todo o trabalho empregado torna o vinho melhor". Mas acredita que tais práticas aumentam a resilienza do vinhedo.

Citou ainda o que chama de vinhos com muita intervenção ou "manipulados": bons ou ruins, servem somente ao paladar. 
Por outro lado, Gaja fez reverência a uma categoria que extrapola este sentido, atingindo a testa (cabeça, mente), e que cada vez mais tem sensibilizado o consumidor, seja pelo cuidado de práticas "naturais", seja pela qualidade final. E isto, segundo ele, é benéfico para chamar a atenção dos "grandes" produtores dos chamados vinhos de paladar.

Entre outras qualidades do vinho, Gaja chamou a atenção à grandeza da bebida como grande "embaixadora" do Genus Loci, ou "espírito do local". O vinho ajuda a entender a grandeza do clima e do local onde é cultivado. Tomou como exemplo a região de Bolgheri, onde " a vida e o vinho amam o respiro do mar".
Grande defensor do aforisma "menos é mais", a começar dos seus rótulos, extremamente simples, Gaja também ressalta o vinho como produto que consegue transmitir através de uma garrafa informações importantes para o consumidor. Informações essas que não têm paralelo quando tratamos de produtos como queijos, salames ou leite.


Bom...você deve estar perguntando...E os vinhos???

Bem, primeiramente  temos que dizer que os vinhos de Angelo Gaja vendidos no Brasil estão em um patamar de preço que torna-os praticamente impossíveis de serem degustados, pelo menos para a grande maioria dos amantes da bebida  de Baco...

O excelente Promis 2013, um IGT Toscano de raça, corte de Merlot (55%), Syrah (35%) e Sangiovese (10%) é vendido por U$ 87,50 (R$360,00). O Promis 2009, mais evoluído e de mesmo valor, apresenta aromas mais complexos, ainda com uma acidez incrível.
Surpreendente o branco Vistamare 2014, corte de Vermentino e Viognier. Esbanja fruta e mineralidade, com bom corpo. Deve ficar ótimo com um peixe ao molho cremoso. U$114,00
O Camarcanda Bolgheri 2009 me surpreendeu pela elegância, com aromas minerais e de carne crua, com estrutura suave de taninos e grande equilíbrio. 

Show à parte, o Brunello di Montalcino Sugarille 2010 apresenta aromas de frutas negras e vermelhas, tabaco e notas balsâmicas A complexidade se repete na boca, com um equilíbrio fenomenal entre acidez, taninos e corpo. U$369,00. Por 200 dólares a menos o Brunello de entrada (2010) satisfaz bolsos mais "econômicos".

Finalizando, era hora de degustar os famosos Barolo e Barbaresco

Começando pelo moderno Sito Moresco 2013 (corte de Nebbiolo, Merlot e Cabernet Sauvignon), com aromas elegantes de couro novo, flores(violeta) e baunilha. Na boca, equilibrado, com excepcional acidez e pronto para beber, com muito prazer. Bastante gastronômico. U$109,90

O Barolo Dagromis 2011 é simplesmente sensacional. Menos aromático inicialmente, depois evolue no nariz com flores secas, couro, balsâmico, toffee,... Excepcional na boca. Sem palavras, U$179,90

O último e aclamado Barbaresco é o vinho emblemático da vinícola. Neste, da safra 2012 os aromas terrosos, de sous bois, cerejas, floral ainda parecem pouco expressivos, devendo literalmente explodir com o tempo de guarda. Acidez perfeitamente equilibrada e alta, com taninos igualmente altos porém firmes. Final muito longo. Vida longa!...para os determinados: U$489,50

Os vinhos de Angelo Gaja são importados pela Mistral