31 de dezembro de 2015

Diary of a madman for wine in Mendoza - day 0












Reúna tradição à inovação. O "velho" ao "novo". Latinos e Europeus. Essa mescla de aparentes contradições define o povo do país de  Fangio, do Papa Francisco, de Lionel Messi. Agora tempere tudo isso com uma das paisagens vitivinícolas mais deslumbrantes do mundo... Pronto, aqui está a essência do vinho argentino!

Em recente viagem organizada pela Wines of Argentina e seu representante no Brasil, André "Deco" Rossi, pude experimentar toda essa "vibrante serenidade", transmitida através de visitas a 11 vinícolas, contato com 26 produtores e degustando quase 200 vinhos em 5 dias. 

Sem contar 2 seminários de altíssimo nivel, um sobre Malbecs de diferentes terroirs e outro sobre marketing vitivinícola. Literalmente, uma pauleira.

Um dia antes de iniciar o programa oficial de visitas, tive a grata oportunidade de visitar a famosa Bodega Lagarde, fundada em 1897 e adquirida em 1969 pela família Pescarmona, hoje representada pelas irmãs Sofia e Lucila.
A identidade da Lagarde reside no fato de ser uma bodega familiar produtora de vinhos de alta gama, tendo como um dos principais pilares a inovação. O bonachão Juan Roby é o enólogo responsável por trazer a magia da Lagarde ao copo.
Juan revelou que a tendência atual da vinícola é o emprego de recipientes de maior volume, com intuito de reduzir o impacto do carvalho no vinho. Segundo ele, esse procedimento origina vinhos com maior pureza, sem perder a elegância que o estágio em madeira confere.

Degustei dez vinhos, bastante representativos das linhas da vinícola, que descrevo abaixo. Só não degustei a linha Altas Cumbres, que tem um espumante, 3 brancos e dois tintos, todos varietais, todos elaborados para serem bebidos jovens. Os vinhos são comercializados no Brasil pela Devinum.


vinhos degustados

Linha Lagarde: são 7 varietais (3 brancos e 4 tintos) e um Rosé (Malbec e Pinot Noir). Todos os vinhos tintos estagiam 8 -10 meses em madeira (50% do lote, entre carvalho francês e americano)

  • Chardonnay 2014: Elaborado através de fermentação tradicional em inox, com temperatura controlada. Álcool 13,2%. Minha primeira impressão foi de mineralidade, muito além da fruta tropical. Juan não deixou compará-lo à um Chablis básico, sendo que a identidade do vinho era única. Está correto. Por aqui vale os 70-80 reais, com certeza!!

  • Blanc de Noir (Rosé) 2015: o corte de Pinot noir com Malbec funciona bem. A cor é bem clarinha, com expressão de fruta vermelha no nariz. Álcool 13,2%. Achei aqui a acidez um pouco mais baixa.

  • Malbec 2014: e começaram os Malbecs... fruta vermelha e negra no nariz, bela acidez na boca. Um pouco mais quente no fim, com seus 14% de álcool.

Linha Guarda: linha superior, elaborada em pequenas quantidades. Compreende 4 varietais (Malbec, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Chardonnay) e um Blend tinto.


  • Guarda Chardonnay 2014: Proveniente de vinhedos de 1350 m de altitude, sendo 40% fermentado em barricas francesas. Não realiza fermentação maloláctica. 14,4% de álcool que não se sente... Que vinho!!! Perfeita integração da fruta com a passagem por madeira. Ainda não temos nas terras tupiniquins...infelizmente.

  • Guarda Malbec DOC 2012: vinhedos de 1906? Isso mesmo! Atrás do restaurante você pode visitar o vinhedo e ver as parreirinhas de Malbec velhinhas... A fermentação clássica é feita em inox e o envelhecimento em barricas usadas por 12 meses. Aqui o álcool aparece (14,2%), porém a concentração de fruta deixa o conjunto bastante agradável.















Linha Primeras Viñas: vinhos únicos, com bom potencial de guarda. Produzidas 4.000 a 15.000 garrafas/ ano, dependendo do potencial da safra. Representada por dois vinhos varietais (Cabernet Sauvignon e Malbec)

  • Primeras Viñas Malbec 2012: também proveniente dos vinhedos de 1906 e outros de 1930. Porém, um manejo único origina vinhos extremamente concentrados e complexos: leveduras indígenas, maceração pré fermentativa por 3 dias (contato com as cascas antes da fermentação), remontagens diárias (ficar "mexendo" no conteúdo do tanque, para homogeneizar), além de amadurecimento por 12-14 meses em barricas francesas novas... aromas de chocolate, cacau, mentolado; sedoso e elegante na boca...WOW!!! Para padrões brasileiros atuais, é caro... algo em torno de R$ 250,00. Super indicado para uma comemoração especial.

Linha Henry: são os vinhos TOP da vinícola, blend que varia ano a ano, de acordo com a performance dos vinhedos e varietais, desde a primeira elaboração em 1990. Tivemos o prazer de degustar a safra disponível no mercado (2010) e as safras que ainda repousam em garrafa (2011 e 2012)



Henry 2010, 2011 e 2012





















  • Henry Gran Guarda Nº1 2010: se tivesse que escolher uma palavra para descrever esse vinho seria" impressionante". 33% de Cabernet sauvignon, 21,5% de Malbec, 24% de Petit Verdot e 21,5% de Cabernet Franc; Vinhedos de 1906, 1993 e 1998; 20 dias de maceração; 24 meses de envelhecimento em barrica e um ano em garrafa antes de ser lançado ao mercado...O valor é alto (na Argentina também), em torno de R$380,00. Mas como digo em alguns casos especiais, este vinho vale cada peso, dólar ou real investido... Potencial de guarda? Mais de 15 anos!!

  • Henry Gran Guarda Nº1 2011: corte de Malbec 70% e Cabernet Sauvignon 30%, a ser lançado no início de 2016; mineral, frutado e floral, com perfil distinto do 2010. Achei o blend de 2010 superior.
  • Henry Gran Guarda Nº1 2012: Neste blend foram empregados 48% de Malbec, 26% de Petit Verdot, 16% de Cabernet Sauvignon e 10% de Cabernet Franc. Impressionante como o emprego de Petit verdot traz complexidade e estrutura ao vinho; vida longa e próspera, deve evoluir tão bem ou melhor que seu irmão dois anos mais velho...

Depois dessa bela degustação, só nos restava saborear os pratos do restaurante da vinícola, impressionantes nos sabores harmonizados aos vinhos... Programa imperdível para quem visitar a Lagarde!!