6 de janeiro de 2015

Olé!

fonte:hipersuper.pt

Harmonização de vinho com comida não é uma ciência exata... Porém, há alguns princípios que devem ser respeitados para extrairmos (ou pelo menos tentarmos extrair) o máximo prazer numa refeição regada à bebida de Baco.

Algumas vezes, as harmonizações são boas; outras, ótimas. Raramente sublimes... Situações despretensiosas como um almoço com colegas (e antes de tudo, amigos) podem se transformar em momentos únicos, inesquecíveis, se a sinergia entre alimento e bebida ocorrer de forma natural, porém pensada.

Apostando nos dotes culinários "geneticamente" adquiridos (e naturalmente aprimorados) da minha competente colega e amiga de consultório Maria Victoria Martinez Descalzo, realizamos finalmente um almoço de sotaque espanhol. O combinado: Ela elaboraria o que quisesse, me passaria o cardápio e então eu cuidaria da harmonização com os vinhos... Tarefa difícil, em se tratando da riqueza da culinária espanhola, seus temperos, suas combinações inusitadas, a profusão de Tapas...
Confesso que se fosse comida árabe eu estaria mais acostumado, pois já tenho experiência com outra amiga que cozinha com maestria comida daquelas bandas...rs (abordarei isso em um próximo post).

Mas vamos aos pratos e vinhos!

O Cardápio...

Tapas:

  • Pulpo a la gallega

mesa de Tapas
  • Homus
  • Azeitonas pretas temperadas
  • Amêndoas assadas salgadas
  • Saladinha de pimentão e bacalhau
  • "callos a la madrileña"
  • "pa amb tomaca" (pão com cobertura de tomate ralado temperado com azeite, sal e alho + jamón)
  • chorizo





pulpo a la gallega

detalhe do "pa amb tomaca"








































E o que escolher para harmonizar, com tantos sabores e texturas, pesos e temperos diferentes? Um vinho que limpasse as papilas gustativas, com bastante frescor e complexidade... E claro, como não poderia deixar de ser, um belíssimo Cava, o Castellroig Brut Nature (citada no meu penúltimo post), que desfilou com elegância pelos Tapas, abrindo os serviços da melhor forma possível.





Primeiro prato:
  • Salada de folhas, tomates grape, nozes e lascas de parmesão. Temperada com molho de alcaparras, mostarda de dijon, limão, azeite, alho e mix de pimentas moídas.











Neste ponto, estávamos nos preparando para o prato principal e finalizando os Tapas. Optei por um branco originário da região do pai de Maria Victoria, Requena, próximo a Valencia. O Las 3 2012 é um "Vino de Pago" da Chozas Carrascal, originário de um blend de Chardonnay, Sauvignon Blanc e Macabeo (também conhecida como Viura). A título de curiosidade, os chamados Vinos de Pago pertencem a uma categoria criada em 2003, aplicada a propriedades individuais, com alta reputação, que focaram o cultivo de variedades internacionais. De cor amarelo palha, com aromas de fruta madura, temperos (tomilho, alecrim) e especiarias (notas de baunilha), este branco possue um bom volume de boca, acidez média/ média -alta, com 13,5% de álcool. Excelente com o final dos Tapas e a salada...

Ficando com água na boca? Tem mais...


Prato principal:


  • "Arroz Al Horno": Arroz de forno com costelinha de porco, grão de bico, linguiça, tomates e batatas laminadas. Apresentação linda, para iniciar comendo com os olhos...



Aí eu tinha que entrar com um tinto. E o meu escolhido, pela boa acidez que caracteriza a uva, bem como seu caráter frutado intenso (que nesse caso aliou-se a algumas notas de franca evolução pela idade) foi o Cuatro Pasos 2008, 100% Mencía. De cor rubi com evolução, apresentava aromas complexos de frutas negras, cerejas, especiarias (pimenta), notas de madeira e toques minerais. Na boca, bela acidez e corpo necessário para escoltar o peso do prato. Nota 10!!!!






O final da refeição nos reservava uma deliciosa surpresa, porém um desafio no que diz respeito à harmonização: uma Pavlova de frutas amarelas! Em forma de bolo, esta sobremesa tem como base o merengue, sendo crocante por fora e macia por dentro, geralmente recheada de frutas vermelhas. A sacada foi utilizar frutas amarelas frescas (ameixa, nectarina, pêssegos, manga, maracujá), bem de acordo com o dia quente. E aí? O que utilizar? Eu precisava de um vinho (espanhol) tão ou mais doce que a sobremesa, com boa acidez e de preferência, aromas de frutas amarelas... Eu precisava de um Málaga!!!
E para minha (ou melhor, nossa) sorte, eu havia trazido um Málaga Jorge Ordonez Victoria 2 2013 de uma viagem recente à Espanha. Homenagem à nossa anfitriã ou coincidência?rs
Subestimados, os Málagas são elaborados com a uva Moscatel de Alexandria, como é o caso deste vinho, derivado da seleção manual de uvas de parreiras com mais de 50 anos, deixadas para secar por um longo período, quando os bagos perdem água e concentram os açúcares. A fermentação destes cachos semelhantes a uvas- passa ocorre então sem a adição de álcool.

A cor amarelo-palha poderia até prenunciar um vinho pouco encorpado...porém...Aromas de frutas tropicais em profusão, acidez lá em cima e doce, muito doce (luscious, como diriam os ingleses). Quer mais? Após um tempo na boca, aromas e sabores de...frutas amarelas! Pêssego, ameixa...Típica harmonização por similaridade, com untuosidade equilibrada entre a sobremesa e vinho, acidez correta para limpar o paladar e a "cereja do bolo": aromas e sabores das frutas. Prato crescendo com o vinho e vice versa!!Indescritível!!


Para terminar esse post, vou pedir licença e reproduzir o que Vitória já escreveu, acrescentando um detalhe a mais...
"Saímos da mesa quase às 19 horas, aproveitando, aos poucos, todos os sabores e aromas, que, exceto pelo homus, me remeteram à minha tão querida Espanha..." Acrescento: não é sua querida Espanha...mais do que nunca, nossa também...rs