9 de setembro de 2014

O delicioso sabor da maturidade




Em recente degustação pude confirmar minha paixão por vinhos que merecem tempo de guarda...

Eu já havia mencionado o Brunello di Montalcino aqui no blog (uma boa surpresa, junho de 2013), e como este vinho pode apresentar resultados tão diferentes, sendo necessária uma busca criteriosa nos dias atuais para não se pagar preços exorbitantes por vinhos irregulares.

Em um almoço promovido pela Importadora Interfood/Todovino, tive o privilégio de conhecer melhor os vinhos da Fattoria dei Barbi, em degustação conduzida por Raffaela Guidi Federzoni, gerente de exportação da vinícola.
Reconhecida mundialmente como um dos principais produtores de Montalcino, a Fattoria dei Barbi pertence à família Colombini, que possui propriedades na região desde o século XIV, e durante sua história desempenhou um papel importante na trajetória do Brunello, sendo a primeira a exportar seus vinhos.

A Fattoria dei Barbi é classificada como tradicional, fiel à legislação local, utilizando somente brunello (como o clone local de sangiovese é chamado) e amadurecendo em barricas de carvalho esloveno. Não alheios à modernidade, alguns recursos recentes são utilizados no processo de vinificação, como a maceração pré-fermentativa a frio. 

Bem, e os vinhos? O local escolhido para a degustação vertical de quatro safras do Brunello di Montalcino Riserva não poderia ser melhor: Restaurante Due Cuochi no Shopping Cidade Jardim. Sob o comando da restauratrice Ida Maria Frank, com a cozinha capitaneada pelo chef italiano Giampiero Giuliani, os Brunellos puderam desfilar toda sua potência aliada à elegância, com surpreendentes harmonizações.

A escolha dos Riservas foi feita por se tratarem dos vinhos mais emblemáticos da vinícola, e segundo Raffaela, os que reúnem o melhor dos dois mundos: podem ser apreciados jovens ou então após um período de guarda, quando mudam suas características totalmente. E para comprovar o que disse, selecionou quatro safras bastante representativas: 2005, 1997, 1987 e 1978.



Iniciamos com o Brunello di Montalcino Riserva 2005; a safra foi considerada boa, apesar de se tratar de um ano mais frio. Coloração granada intensa, aromas de frutos escuros maduros, notas terrosas e um toque de baunilha. Na boca, o corpo é alto, com taninos elevados, porém sem arestas ( adstringência). Pede um tempo de guarda.

Produto de um ano mais quente, com verão longo, o Brunello di Montalcino Riserva 1997 apresentava uma coloração granada menos intensa do centro para a periferia, com nuances marrons, evidenciando sua evolução. Os aromas remetiam a frutos muito maduros, com toques terrosos mais intensos e um maravilhoso retrolfato de frutas secas. De corpo médio alto, bela acidez, equilibrada com o álcool e com persistência longa, trata-se de um brunello clássico de um ano especial. Foi o destaque individual.

O vinho da sequência, o Brunello di Montalcino Riserva 1987, foi o mais leve de todos. Apresentou-se mais aberto no início da degustação, porém em alguns minutos já dava mostras de cansaço, ficando menos expressivo no olfato. Na boca, apresentava corpo médio e boa acidez apesar do tempo. Não foi considerado um bom ano na região, quando ocorreram chuvas em excesso aliadas ao clima mais frio que o habitual.

Para arrematar, o Brunello di Montalcino Riserva 1978 foi servido envolto em uma aura de ansiedade. De coloração completamente tijolo pálida, evoluída, se revelou o mais delicado de todos. Aromas complexos remetendo a terra molhada, frutas e ervas secas, com um conjunto excepcional... acidez incrível para um vinho de 36 anos!

Até os pratos, o vinho que mais se destacava era o equilibrado e clássico 1997, porém...

Gnocchi de sêmola com Tallegio e presunto crocante


paleta de cordeiro assada com couscous marroquino
Os pratos apresentavam uma delicadeza e esmero no preparo que "pediam" um vinho com essas características, além de acidez, complexidade e potência na medida que não ofuscasse o prato ou vice versa. E a simbiose perfeita veio justamente com o vovô da turma, da safra 1978...

Conclusão? Alguns vinhos, por mais que a novas técnicas os tornem mais "acessíveis", tem vocação, na minha modesta opinião, para se expressar melhor após um período de amadurecimento... assim como alguns de nós. (risos)



PS: Como a única safra disponível no Brasil é a 2005, a sugestão é comprar, beber uma garrafa e guardar outra, para conferir no futuro a sua impressão pessoal. E não se esqueça de me contar.

Você pode acessar o link da Todovino/Interfood aqui ou ligar para 2602-7266

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