6 de maio de 2014

Solamente...Argentina!









Sinônimo de tintos e brancos de boa relação custo benefício, os vinhos argentinos atuais são o reflexo da contínua melhora de qualidade, com foco no mercado internacional, ao contrário do passado, quando o foco era a produção em massa de vinhos baratos, cujo público alvo era o consumidor local.

Vales Vinícolas da Argentina: Norte, Cuyo e Patagônia


A origem da moderna indústria vinícola argentina está ligada à imigração maciça de italianos, espanhóis (sobretudo bascos e catalães) e suíços, que plantaram as primeiras videiras no sopé dos Andes, ao redor das cidades de Mendoza inicialmente, e depois em San Juan, distantes da capital Buenos Aires.
Com a abertura da Ferrovia Buenos Aires Al Pacifico em 1885, sob orientação do engenheiro Edmund James Palmer Norton (não é mera coincidência), a província de Mendoza foi ligada diretamente a Buenos Aires, seu vasto mercado consumidor e consequentemente, para a exportação. Norton é considerado um dos pioneiros da vitivinicultura argentina, tendo instalado a primeira bodega da região em 1895.


Verificou-se um progressivo aumento da área cultivada, atingindo um pico de 350.000 hectares na década de 70, acompanhado de um incrível consumo per capita de 90 litros por ano. Porém, a demora na introdução de uma economia aberta (somente em 1990), levou a uma progressiva queda no cultivo e no consumo (30 litros/ ano, o que comparado ao padrão brasileiro ainda é alto).




Para entender um pouco melhor sobre o panorama do vinho argentino atual, convidei meu amigo e parceiro de degustações  e estudos André (Deco) Rossi para um bate-papo, pois o considero uma das maiores autoridades no Brasil sobre o assunto. Deco é publicitário de formação, tendo passado por todas grandes agências (W/Brasil, Young & Rubican, entre outras) e atualmente Relações Públicas (R.P.) no Brasil da Wines of Argentina.
Em 2012 ganhou o concurso "Meu vinho com Suzana Balbo", quando concorreu com 30 blogueiros e jornalistas de vinho. Deco elaborou um vinho de corte, com 50% Cabernet Sauvignon e 50% Tannat, a partir de 5 amostras de diferentes vinhos (2 Cabernet Sauvignon, 2 Malbec e 1 Tannat) da famosa enóloga argentina Suzana Balbo. Apesar das advertências da enóloga sobre o uso da Tannat, o vinho foi o escolhido na degustação às cegas, o que deixou Suzana Balbo extremamente feliz quando soube do corte, segundo Deco: "- Ela me disse que o vinho vencedor premiou a coragem de usar um corte simples e diferente" (o único que usou somente duas variedades, deixando de lado a Malbec). Foi lançado como uma edição limitadíssima da linha Dominio del Plata Essential, com 200 garrafas vendidas a amigos.

O vinho de Deco, 50% Cabernet Sauvignon e 50% Tannat



Vejam o que Deco tem para contar:


Sentidos do Vinho: - Porque um R.P. da Wines of Argentina no Brasil?

Deco Rossi: - A idéia de ter alguém no Brasil, assim como nos EUA, Canadá, China e Inglaterra, é criar um vínculo mais estreito com os principais mercados. Hoje o Brasil é terceiro principal mercado, atrás do americano e do inglês, seguido muito de perto pelo Canadá. Poderíamos estar até melhor colocados, mas devido a entraves políticos e burocráticos, ficamos estagnados.


Sentidos do Vinho: - Há alguns anos, a indústria vitivinícola da Argentina tomou uma série de medidas no sentido de favorecer as exportações, em detrimento ao mercado interno. Qual sua opinião?

Deco Rossi: - Olhando o cenário atual, vemos que foi uma decisão acertada. O consumo dentro da Argentina caiu progressivamente nos últimos anos, e se os produtores estivessem voltados para o mercado interno, o resultado seria desastroso.


Sentidos do Vinho: - Mendoza e San Juan juntos produzem mais de 85 % do vinho argentino. E as outras regiões?

Deco Rossi: - Salta hoje responde a 3% da produção, o mesmo que Rio Negro e Neuquén, na Patagônia. É pouco em termos de volume, porém, são regiões com potencial enorme, onde encontramos vinhos sensacionais.


Sentidos do Vinho: - Malbec tornou-se a uva emblemática da Argentina, e realmente produz vinhos fantásticos. Em termos atuais, você destacaria alguma outra variedade?

Deco Rossi: - Sim, a Cabernet Franc. Há cerca de 2 anos tenho provado exemplares argentinos muito bons. Vários enólogos já gostavam de utilizá-la em cortes, e recentemente existe um movimento no sentido de elaborar vinhos varietais, tal o potencial dessa uva, de ciclo mais curto que a famosa Cabernet Sauvignon. Temos belos exemplares de varietais 100% Cabernet Franc disponíveis no Brasil, como os vinhos da LagardeHumberto Canale, Pulenta, Andeluna, LaCelia, Benegas e Casarena.  Desde o ano passado, o Argentina Wine Awards criou uma categoria especial para avaliação de vinhos baseados em Cabernet Franc, e na avaliação deste ano, degustadores do mais alto gabarito, como o brasileiro Jorge Lucki e o inglês Steven Spurrier, foram enfáticos ao dizer: "a Cabernet Franc na Argentina surpreende".


Sentidos do Vinho: - E a Bonarda? Está sendo deixada de lado?

Deco Rossi: - Não acho que está sendo deixada de lado; existe muita resistência contra essa varietal, sempre usada em cortes ou, por se tratar de uma planta muito vigorosa, para fazer vinhos baratos, de volume. O primeiro grande Bonarda que aportou no Brasil foi o Reserva da Nieto Senetiner, há 10 anos. Daí em diante começaram a fazer ensaios de Bonarda 100% de alta qualidade. Muitos já têm, como o El Enemigo, da família Catena, que é muito bom, porém com toque acentuado de madeira. Um vinho interessante para ter a percepção da Bonarda em estado puro e bem trabalhada é o Colonia Las Liebres, bastante frutado, sem passagem por madeira. Enfim, a Bonarda continua sendo uma aposta, sem alarde, como é a nossa proposta de trabalho atual, fazendo o consumidor enxergar a variedade imensa que os vinhos argentinos têm a oferecer. Sempre uso como exemplo a Malbec: ninguém tira mais a sua "identidade argentina", não precisamos mais fazer propaganda dela. O foco atual é a diversidade.


Sentidos do Vinho: - E com relação aos vinhos brancos?

Deco Rossi: - Afirmo: a hora que o brasileiro descobrir os vinhos feitos a partir da Torrontés, vai ocorrer um verdadeiro "boom" de consumo. Combina com nosso clima, é aromático e ainda por cima, barato! É um belíssimo vinho para tomar à beira da piscina. Observamos belos resultados com outras variedades, como a Riesling (Humberto Canale tem um single vineyard muito bom), a Semillon e a Viognier, com especial destaque para esta última. Destaco ainda os Sauvignon Blancs do Vale do Uco.


Sentidos do Vinho: - Em relação à famosa combinação de carnes com vinho argentino, qual a sua opinião?

Deco Rossi: - As carnes feita na parrilla combinam bem com vinhos encorpados e equilibrados; mas veja bem: quando falo encorpado não significa tânico. Para mim, o problema surge ao combinar a carne com um vinho desequilibrado, extremamente tânico ou quando existe um excesso de sal, de tempero na carne, que simplesmente não harmoniza com o tanino- é como óleo e água.

Deco Rossi e sua criação

Nosso bate-papo com almoço aconteceu no Restaurante Bárbaro, em São Paulo, especializado em carnes preparadas na parrila, a grelha argentina. Nosso Ojo del Bife (miolo do contra-filé) fez uma bela parceria com o vinho trazido por Deco: seu vinho ganhador do concurso! E que privilégio degustar um vinho único, criado por um amigo. Deixando a parte técnica de lado (me limito a dizer que o vinho estava estupendo), esse momento de confraternização, falando de um assunto que gostamos é a parte mais legal que o vinho proporciona.

Muito sucesso Deco! Você merece!