9 de agosto de 2013

Terrazas de Los Andes


A convite de Sergio Degese, Diretor Geral para o Brasil da Moët Hennessy, através de Thaís Vallim, da KRP Relações Públicas, fui convidado para um almoço e degustação dos vinhos Terrazas de los Andes no Attimo Restaurante, do chef Jefferson Rueda.

Terrazas de los Andes

minicoxinhas
A simpática Paola Mastrocola, responsável pela marca Terrazas no Brasil, deu as boas vindas, e o serviço foi iniciado de forma descontraída, com deliciosas interpretações da comida de bar: bife a cavalo com crocante de cebola, minicoxinhas, canudinho de creme de camarão e ovas de peixe, entre outras criações de Rueda. O chef, de 34 anos, casado com Janaína Rueda, chef e proprietária do excelente Bar da Dona Onça, nasceu no interior de São Paulo, e após ganhar progressiva notoriedade em casas como Cantaloup, Parigi e Pomodori associou-se ao restaurateur Marcelo Fernandes para criarem o Attimo, onde Rueda emprega a técnica francesa, a experiência italiana e a raiz caipira...
canudinho

Junto com as entradas foi servido o Terrazas Torrontés 2011 (Álcool 13,5%), proveniente de região de Cafayate, em Salta, Argentina, a 1800 metros acima do nível do mar; de coloração palha com reflexos verdeais, chamou a atenção o caráter cítrico do aroma (casca de tangerina), além das esperadas notas de lichia e rosas. A boa acidez deixou o vinho bastante agradável, sem o caráter enjoativo que muitos vinhos desta casta apresentam.



Após as entradas, tivemos a honra de ouvir o Chef de Cave Hervé Birnie- Scott abrir os trabalhos contando sua história, que se funde à própria história da Terazzas de los Andes. 
Graduado pela Ecole Nationale Supérieure d'Agronomie de Montpellier em 1989, este engenheiro agrônomo e enólogo francês iniciou sua carreira em vinícolas da Califórnia e Austrália. Em 1991, mudou-se para a Argentina, para trabalhar como responsável pelos vinhos super premium do grupo LVMH; neste mesmo período cria o Terrazas de Los Andes, cuja primeira safra comercial data de 1997.
Em 2002 retornou à França, mais precisamente para a região de Champagne, como diretor de operações da Moët & Chandon, e em 2008 torna-se diretor técnico da vinícola Numanthia, na Espanha.
Em 2009 decide voltar para a Argentina e reencontrar-se com sua criação, e também com o Cheval des Andes, resultado da aliança entre o Premier Grand Cru Cheval Blanc e Terrazas de los Andes.
Humilde, o enólogo defende que seu trabalho foi somente escolher os melhores terroirs para a Cabernet Sauvignon, Malbec, Torrontés e Chardonnay. Acreditava, no início de 1999, que o Château Cheval Blanc havia procurado a Terrazas de los Andes pelo seu talento como enólogo; hoje têm certeza que foi procurado devido ao tesouro que a terra da Terrazas esconde no solo...
Com relação à casta Torrontés, fez considerações importantes sobre sua origem há 200 anos (cruzamento natural entre a Moscatel e a variedade local Criolla Chica, algo sem precedentes) e também sobre os cuidados com a elaboração dos vinhos (o grande inimigo na vinificação é a película da casta, que se não passar por uma prensagem suave, libera além dos aromas, um amargor indesejável).

Passando aos pratos, o primeiro a ser servido foi o chamado "relembrando o passado", composto de tomate, sardinha e cebola roxa
relembrando o passado
Aromático devido aos temperos, compatibilizou neste quesito com o Torrontés; o tomate fresco "quebrou" um pouco a gordura da sardinha, que o Torrontés sozinho não conseguiria encarar com sua boa, porém não suficiente, acidez.

Na seqüência, foram servidos o Terrazas Reserva Cabernet Sauvignon 2010 (Álcool 14,2%) de coloração rubi intensa, com lágrimas violáceas e aromas de frutas escuras (cereja negra), toque mentolado, baunilha e tostados; acidez e corpo médio-altos, "gordo", longo e bastante agradável. Logo após, o Terrazas Reserva Malbec 2011 (Álcool 14,4%) de coloração púrpura evidenciava fruta negra madura e um nítido floral no aroma, com uma acidez menor na boca, mais leve que o vinho anterior.
Os comentários de Hervé sobre a influência do clima nos sabores "bateram" com nossas impressões: 2010, um ano mais frio, originou nos vinhos a base de Cabernet Sauvignon aromas de menta, enquanto 2011, mais quente, trouxe toques de fruta madura aos baseados em Malbec.

Para estes vinhos, foi servido um maravilhoso Raviolini de Camarões e Lagostins ao molho bisque com champagne e tartufo nero d'Alba. Achei o prato delicado demais para os tintos, mas não "brigou" tanto como eu esperava...

O prato seguinte, Arroz Carnaroli "Acquarello" com suã (carne da coluna vertebral do porco), lingüiça, repolho, abóbora cabocham (ou japonesa) e grão de bico, bastante encorpado e aromático, pedia um tinto à altura, porém com evolução suficiente para harmonizar com os sabores.

O famoso Cheval des Andes 2007 (Álcool 14%) veio carregado de expectativas; no aspecto visual, uma "mescla" propriamente dita dos vinhos anteriores: rubi profundo com toques violetas e uma borda de evolução discreta. Aromas de frutos negros maduros deram o (mono) tom, e confesso que minha primeira impressão foi de desapontamento, apostando que o vinho necessitaria de mais aeração (já estava no decanter há uma hora, segundo o sommelier) para livrar-se dessa "timidez" inicial. O conjunto todo estava equilibrado pelo alto, com final tostado e longo. Resolvi deixá-lo no copo, enquanto ouvia os comentários de Hervé...
Lembrou que Pierre Lurton, responsável pelo Cheval Blanc disse que foi à Argentina para encontrar o "seu" Malbec, já que após a praga da phylloxera, a qualidade da Malbec de Bordeaux se perdeu. Comentou que a filosofia do Château Cheval Blanc é o equilíbrio e a capacidade de envelhecimento com ganho de complexidade ao longo dos anos, tanto que o blend do Cheval des Andes (Cabernet Sauvignon e Malbec) conta com uma pequena porcentagem de Petit Verdot desde 2004, que confere o frescor necessário para atingir esse objetivo (as safras de Cheval des Andes foram 1999, 2001, 2002, 2004, 2005, 2006 e a atual 2007). Aliás, o blend conta ainda com pequenas quantidades de Merlot e Cabernet Franc.
Retornei ao copo: o vinho já começava dar sinais de mudança; aromas mais complexos começavam a aparecer, como menta,chocolate amargo e tabaco, denunciando um grande vinho, que se esconde inicialmente, porém com grande potencial de evolução, tanto no copo como na garrafa.

O raro Terrazas Single Vineyard Petit Manseng 2010 (Álcool 12,9%) veio para fechar com chave de ouro; achei o vinho simplesmente incrível e pesquisando nos sites de avaliadores de renome, achei pouquíssimas referências a vinhos de Petit Manseng. Para quem acha o nome estranho, esclareço que se trata de uma uva originária do sudoeste da França, na zona dos Pirineus, já "perto" da fronteira com a Espanha, onde é a uva principal das Apelações de Origem (AOC) Jurançon e Pacherenc du Vic-Bilh. Notória para a elaboração de vinhos doces, as uvas raramente são afetadas pela Botrytis (fungo da chamada "podridão nobre", que desidrata as uvas e concentra o açúcar - mas esse é um assunto extenso, fica para a próxima) e sofrem a chamada passerillage (passificação).
Este belo exemplar, de coloração dourada intensa, apresentava aromas de damasco, frutas secas e uma sutil nota de abóbora madura. Na boca, uma bela acidez, equilibrada perfeitamente com a doçura. 
E qual não foi a minha surpresa quando foi servida a sobremesa... Sorvete de leite de coco com creme de abóbora e crocante de semente de abóbora! Uma das melhores harmonizações de sobremesa com um vinho doce dos últimos tempos!



Finalizei esse maravilhoso almoço/ degustação com uma conversa com o simpático e humilde Hervé Birnie-Scott, esperando revê-lo em breve na terra que adotou, ou mesmo na sua terra Natal...







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