1 de agosto de 2013

Guaramare, ou "No mundo de Vicente Bojovski"

Difícil falar de um Restaurante que você considera mais que um Super Restaurante. Um local que você sempre tem prazer em retornar...
Para mim, ir a Guarapari sem visitar o Guaramare, deixaria a viagem incompleta.
Desde 2007, na minha primeira visita ao mundo do Sr Bojovski, fui conquistado pela sua hospitalidade e carinho; o que dizer de um local onde os funcionários movem cadeiras e bancos de madeira do lugar só para montar uma "caminha" confortável para meus filhos, que dormem como se estivessem no sofá de casa?

Logo na entrada, um "barco" na parede chama a atenção de quem passa na rua. É um prenúncio do mundo que iremos adentrar... Na verdade, o restaurante é uma extensão da casa do meu amigo Vicente, localizado na Avenida Meaípe.
entrada do Guaramare

O interior rústico, porém aconchegante, com mesas pretas e paredes de tijolos torna-se mais sério à noite do que de dia, onde a luz natural entra por todos os lados, privilegiando a bela arquitetura. Contudo, é o hobby (?) de Vicente que traz descontração a casa: suas pinturas povoam nichos nas paredes e podem ser vistas pelos vários ambientes; seu estúdio é aberto à visitação, onde seus amigos podem apreciar e comprar suas concorridas obras. 



Vicente Bojovski tem uma história de vida comovente: camponês nascido em um vilarejo pobre da Macedônia, aprendeu desde criança a cuidar dos animais e das plantações, sustento da família, bem como ajudar sua avó no preparo dos alimentos. No pouco tempo que restava, escrevia poemas e desenhava imagens coloridas daquela vida dura e sacrificada, almejando um futuro melhor... 
Aos 25 anos de idade saiu de casa com destino à França, onde trabalhou em fábricas, restaurantes e finalmente no setor de restaurações e decorações, quando abriu o primeiro negócio. Seu trabalho permitiu que viajasse por toda a Europa, onde se encantou com a arte culinária ligada a frutos do mar e pescados.
Porém, sua inquietude o trouxe ao Brasil, mais precisamente ao Rio de Janeiro, no ano de 1982. O contato com donos de restaurantes libaneses, espanhóis, árabes, franceses, dentre outros, o estimulou a entrar no ramo que tanto era apaixonado. Após casar-se em Vitória, no Espírito Santo, montou com os recursos que tinha o primeiro Guaramare em 1986, na cidade de Guarapari. Os negócios prosperaram e o local ficou pequeno para o talento de Vicente; em 1995 abriu a casa atual, que recebe desde 1999 duas estrelas do guia quatro rodas como o melhor restaurante de pescados do Brasil.

Mas ele não está sozinho... A família, coração do Guaramare, está presente em todas as frentes, seja com a delicadeza e simpatia da esposa Nádia, seja com a irmã Ricima no suporte à cozinha. E QUE COZINHA!

A Salada Mista de entrada aguça o paladar e a visão; alface, tomate, brócolis ferventados, berinjela grelhada, abobrinhas à milanesa, cebola crua, repolho picado, queijo "Minas" e uma fatia de pão integral, tudo temperado com azeite, vinagre, sal e pimenta do reino, mais o acompanhamento de molho de alho compõem o que seria por si só uma refeição. Acrescente as fatias de "pão de alho", deliciosas (e perigosas para os vinhos, é bom lavar bem o palato depois) e a água Prata e... pronto! Aguarde o serviço principal...

Da grelha especialmente desenvolvida por Vicente é que saem suas criações: pescados fresquíssimos como Cioba, Pargo e Dentão dividem as grelhas com os camarões V.G. e lagostas. Os peixes vão ao braseiro com a cabeça e as escamas, estas últimas retiradas somente na hora de servir. Com a casca, os camarões são inicialmente levados à grelha para depois passarem rapidamente pela frigideira, e a nobre lagosta recebe tempero de azeite e alecrim fresco antes do contato com as brasas. O chef adiciona o seu famoso molho a base de manteiga, azeite e alcaparras somente na hora do serviço, em cada prato individualmente.
Tudo é servido com acompanhamento de batatas cozidas (têm fritas para as crianças também!) e arroz à Guaramare (semelhante ao arroz à grega); se o cliente quiser, espaguete. A apresentação do prato chamado Misto de Peixe, Camarão e Lagosta é um show à parte...

Misto de Peixe, Camarão e Lagosta
Devo confessar que já experimentei diversos vinhos com esse mesmo prato, mas dessa última vez a harmonização foi sublime...
Gosto sempre de levar um vinho especial para também beber com meu amigo, e desta vez o escolhido foi o vinho branco L'Angelica Chardonnay 2006, Álcool 13.5% Vol. (www.todovino.com.br).
Eu já havia tomado a safra 2004 em outras oportunidades, espetacular. Porém, no fim de 2011 minha última garrafa de 2004 já evidenciava uma queda de acidez após 7 anos... Este 2006 apresenta uma coloração dourada com lágrimas lentas e numerosas. Os aromas são simplesmente sensacionais, de fruta tropical madura (abacaxi), especiarias e toques amanteigados. Na boca apresenta uma bela acidez, equilibrada perfeitamente com o álcool, madeira bem integrada ao conjunto, corpo alto e uma longa, longa persistência. Como todo vinho excepcional, o retrolfato evidencia aromas extras, como notas de frutas secas (avelãs).
A harmonização foi algo inimaginável; o peixe, o camarão e a lagosta com o molho de manteiga combinaram muito bem com o vinho, tudo num crescente, com nota máxima para a lagosta, que com seu sabor e textura superior aliados a um aroma de alecrim suave, fez um par absolutamente perfeito, algo absurdamente bom e raro!


O pavê de pêssego da Ricima, a única sobremesa da casa, encerrou mais uma noite especial com meu velho amigo, que brincando me disse que gostaria de ser rico para poder tomar bons vinhos como aquele..

Vicente, a riqueza da alma é muito mais valiosa... e essa você tem de sobra...



Um comentário:

  1. Felipe, que tour maravilhoso pelo Espírito Santo, hein?! Fiquei encantado com o Guaramare. Preciso conhecer urgentemente.
    Grande abraço!!

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