24 de julho de 2013

Férias

Nada como férias para relaxar e tomar um bom vinho, sem preocupações de lei seca, arrastões e Cia...

Quando a opção é a Costa Brasileira, a predominância de receitas à base de pescados e frutos do mar direcionam a escolha para os vinhos brancos, os quais selecionei cuidadosamente para a viagem, inserindo um estranho no ninho: Porto Tawny 20 anos da Taylor's (para a meditazione, como diriam os italianos).

O destino foi Guarapari, cidade localizada no sul do Espírito Santo, famosa por suas belezas naturais, com mais de 30 praias. 
Apesar da época (julho), as temperaturas ficam bem agradáveis, variando de 16 a 26 graus; no verão chega-se facilmente aos 30 graus, porém as temperaturas não variam muito, em decorrência da proximidade com o mar (grandes massas de água ajudam a "regular" as temperaturas).



Para falar a verdade, acho que é um destino pouco explorado pelos paulistas; Guarapari é conhecida como a "praia dos mineiros", que durante as férias de verão engrossam o coro dos capixabas, dirigindo-se à cidade praiana do Espírito Santo que melhor combina lazer com infraestrutura.



Nos anos 60, Guarapari tornou-se famosa nacional e internacionalmente pelas propaladas "propriedades medicinais" de suas areias monazíticas, que nunca foram comprovadas cientificamente. Vou mais na linha de pensamento que passar alguns dias na praia longe do stress do dia a dia pode de fato reduzir os sintomas de algumas doenças crônicas...

E a culinária? Baseada em frutos do mar e pescados, destaca-se a famosa Moqueca Capixaba, que diferentemente da moqueca baiana, não leva azeite de dendê nem leite de coco. Outro prato bastante conhecido é a Torta Capixaba, tradicionalmente consumida durante a Semana Santa.
Além dos pratos regionais, restaurantes da capital Vitória (51 km de distância bela Rodovia do Sol) como o Soeta têm conseguido aproveitar a oferta de frutos do mar para integrar a criação de menus contemporâneos com primazia.

A harmonização com os vinhos - no caso, brancos - deve respeitar alguns fatores importantes, como o peso ou intensidade do prato, os sabores, as texturas e os aromas. Dentre os vinhos brancos, duas "correntes" predominam: os frescos, ácidos e aromáticos liderados pela Sauvignon Blanc e os encorpados, untuosos e macios capitaneados pela Chardonnay. Contudo, esta tentativa de classificação acaba injustiçando uvas como a Riesling, Chenin Blanc, Alvarinho, Arinto, Furmint, entre outras, cujo potencial de harmonização é tão bom ou melhor que as mais conhecidas, em determinadas situações.
Poderiam me indagar sobre os tintos à base de Pinot Noir, que devido à sua menor tanicidade teriam o privilégio de harmonizar com uma posta de atum grelhado, por exemplo. Eu responderia que a meu ver isso seria uma bela exceção, pois a combinação de alimentos com toque iodado (como os peixes de água salgada e frutos do mar) com os taninos presentes nos vinhos tintos origina um desagradável gosto metálico.
Mas é importante ressaltar que as pessoas têm o direito de beber o vinho que quiser com qualquer comida que lhes convier, isto é uma combinação. Diferentemente, a harmonização pressupõe a melhora do prato pelo vinho e vice -versa; e nesse universo peixe e vinho tinto geralmente não andam de mãos dadas...

Enfim, vamos às nossas principais tentativas de harmonização nas férias:

Antonio Saramago
1) Risco Branco 2010, produzido por Antonio Saramago, Álcool 13% vol., comprado na loja Baccos por R$69,80 (www.baccos.com.br): Arinto e Fernão Pires. Este vinho, produzido na Península de Setúbal, Portugal, pelo simpático e humilde Antônio Saramago (o enólogo responsável pelo famoso Periquita e pelo emblemático Tapada dos Coelheiros), apresenta coloração amarelo palha, aromas cítricos e notas minerais, belíssima acidez e uma pontinha de álcool a mais na minha modesta opinião.
A sugestão de harmonização do enólogo é com peixes e mariscos, para combinar com sua leveza.
Tentamos combiná-lo com camarões V.G. (verdadeiramente grandes, é isso mesmo) fresquinhos, sem nenhum preparo adicional, escoltado apenas de arroz branco.
Aliás sabiam que os camarões são comercialmente classificados pelo tamanho? Os maiores são os 8/10 (8 a 10 unidades por kilo), depois os V.G. (11/15), 16/20, 21/30, 30/40, 40/50 e por aí vai, até os 7 barbas e os menorzinhos descascados.

Minha impressão foi de uma boa combinação devido ao caráter mineral do vinho, porém a textura do camarão, conferida pela sua carne macia e consistente exigia um vinho com mais untuosidade. Melhorou com um limãozinho por cima, trazendo um sabor cítrico ao prato









2) Principal Tête de Cuvée Rosé 2010 (Ideal Drinks, tel:20618529): 100% Pinot Noir. O vinho da safra 2009 já tinha aparecido no blog anteriormente, como destaque da Expovinis 2013; este 2010 apresenta-se com uma cor salmão de média intensidade, aromas de frutas vermelhas e temperos (secos), e na boca um belo corpo, com uma acidez vibrante.
O rótulo desta safra mudou também: o fundo branco deu lugar a um belo rótulo de matiz rosada, e os diversos símbolos que traduzem valores como amor, amizade, trabalho, espiritualidade, dentre outros, encontram-se entremeados por brasões maiores.







A moqueca capixaba (também de camarões VG) entrou em cena...e a combinação foi excelente: mais leve que a baiana, a acidez do tomate harmonizou perfeitamente com o frescor do vinho. Com um corpo maior que os rosés comuns, trouxe a característica necessária para equilibrar a textura dos camarões. A "cereja do bolo" apareceu com os aromas do coentro da moqueca e as notas de tempero seco do vinho. Bela harmonização! E com Panela de Barro...sem ela, não há moqueca! Aliás, existe uma regrinha sobre o preparo do moqueca: ela deve estar pronta entre o ápice do apetite e o início da impaciência...rs

No próximo post darei ênfase a dois restaurantes: Soeta e Guaramare,  paradas obrigatórias quando estou em Guarapari...

Abraços a todos!



Um comentário:

  1. Ótimo post como sempre. Gostei principalmente da dica do Rosé. Vou experimentar.

    Um abraço.

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