18 de junho de 2013

Uma boa surpresa

Já que não dá para sair à noite ultimamente, vamos de almoço no domingo. Cantina italiana daquelas beeem tradicionais e um bom vinho. Tutti buona gente, como diria meu amigo Milton Bonani...

Confesso que não conhecia a Cantina di Salerno (www.cantinadisalerno.com.br), fundada em 1980... Portando um cupom promocional de Cabrito para 4 pessoas e com a certeza (?) de encontrar um espaguete à bolonhesa para os pequenos, fomos até lá como manda o figurino: duas famílias com crianças! (cantina italiana sem barulho não é cantina). Surpreendeu-me o espaço: mesas grandes, bem distribuídas, salão na medida certa. Garçons simpáticos e eficientes, sem "afetação"; provavelmente alguns já trabalham na casa há um bom tempo...

De cara, o couvert (R$9,00) me agradou: pão italiano, berinjela, sardela, manteiga e uma deliciosa bruschetta. "Harmonizou" com o clima descontraído do local, tradicionais garrafas penduradas no teto...

E o nosso almoço? Pensei... Cabrito com batatas acompanhado de brócolis com alho... Qual vinho? (aliás, este último acompanhamento eu passo, pois é difícil de harmonizar). Prato encorpado, de cozimento lento, a carne não viria "sangrando", como no bom churrasco... Eu precisava de um tinto igualmente potente, porém elegante, com dom de evoluir bem, mantendo boa acidez para contrapor a gordura, taninos já "resolvidos" e de preferência com aromas terciários, para acompanhar os temperos. Confesso que pensei em um Brunello, mas fiquei receoso.

Explico: ao redor deste vinho foi criada uma "aura', um modismo, que acompanha aqueles que o apreciam ou simplesmente o ostentam.
Até a década de 70, a região de Montalcino na Itália era pouco conhecida, bem como era pequena a área plantada de vinhedos. Em 1966 existiam 12 produtores na região, com o foco em Franco Biondi Santi, neto de Ferrucio Biondi Santi, o pioneiro que produziu o primeiro vinho do clã em 1888 a partir da seleção das melhores mudas da variedade Sangiovese (dando origem a uma uva mais compacta e de película mais espessa, chamada localmente Brunello - daí o nome, capisce?). 
A partir da criação da DOCG (Denominazione di Origine Controlatta e Garantita) Brunello di Montalcino, verificou-se um aumento em progressão geométrica do número de produtores distribuídos por toda a região, ávidos pelo teórico selo de qualidade e pelos seus consumidores, sem levar em consideração as nuances de altitude e composição do solo (um dos mais complexos de toda a Itália). Hoje são aproximadamente 250 produtores espalhados em 2.000 hectares discutindo a criação ou não de subzonas dentro da denominação.
Os que são favoráveis à divisão argumentam que a uva Sangiovese produzida em larga escala (nas áreas mais quentes e planas ao Sul ou em terrenos argilosos do Leste) é completamente diferente daquela que cresce nas encostas mais altas das pequenas propriedades (geralmente ao redor da cidade de Montalcino). Do outro lado, estão aqueles que acreditam que a criação de subzonas deveria ter sido feita quando Brunello tornou-se DOC, e atualmente vai contra os interesses comerciais locais, além de gerar mais confusão...
Ian d'Agata, da revista inglesa Decanter afirmou, na edição de abril de 2012, acreditar ser impossível produzir uma Sangiovese de qualidade em solos ricos em argila e defendia a criação das subzonas para tornar mais aparente os diferentes estilos de Brunello. Porém, acrescenta que na visão de alguns produtores isto poderia atribuir uma imagem de um estilo mais "leve" de Brunello, afastando os consumidores. A discussão vai longe, mas é fato que para a Sangiovese expressar todo seu potencial, necessita de solo adequado e tempo de maturação ideal.
Porém, a tendência do consumidor atual de consumir vinhos mais frutados e com taninos mais "macios" levou a mudanças tanto na época de colheita (mais precoce) como nas regras de vinificação (diminuição do tempo mínimo de estágio em tonéis de carvalho esloveno de 3 para 2 anos), criando duas vertentes de estilos: tradicionais e os modernos.
Qual estilo é melhor? As perguntas talvez fossem: Qual estilo expressa melhor as características locais? Qual vinho gosto mais? O negócio então é provar, provar, provar...

E falando em provar, meu vinho tratava-se de um Solaria 123, safra 2001 (importado pela Todovino/ Interfood, que infelizmente descontinuou esta operação). Álcool 13,5% vol. Produzido no lado sudeste da colina de Montalcino a 300 metros de altura (somente 8 hectares), este vinho de coloração granada, com nítida evolução, expressava um aroma maravilhoso de frutas passadas, flor em decomposição (violeta), verniz, chocolate; na boca uma acidez ainda marcante, equilibradíssima com o grande corpo e o álcool. Persistência interminável... Por si só o vinho era um arraso. Com o cabrito veio o "anel certo para o dedo": corpo do prato e corpo do vinho na medida, acidez do vinho e gordura do prato em sinergia, aromas...
Bem, achei o estilo que gosto! Brunello bem feito! rs...



Nenhum comentário:

Postar um comentário