9 de maio de 2013

Pimenta na boca dos outros (com Riesling) é refresco...

Sempre tive vontade de botar em prática alguns conhecimentos teóricos em relação à comida Asiática, com seus atraentes (e perigosos?) temperos.

Essa oportunidade apareceu na minha visita ao Restaurante Tian, em São Paulo, que tem como proprietários a chef Marina Pirapatan e o restaurateur Cyro Sá, ex-sócios do Mestiço. A cozinha do restaurante tem influências culinárias da China, Tailândia, Vietnã, Coréia, Filipinas e Japão (o casal morou fora do Brasil por 10 anos)

Bem, na teoria, eu sabia que pratos pouco apimentados e ricos em especiarias doces poderiam se casar com vinhos mais aromáticos, bem como pratos mais condimentados têm afinidade com vinhos de maior acidez e toque de doçura. Uma ressalva importante deveria ser feita à graduação alcoólica e aos taninos: pratos mais "quentes" não se dão bem com eles (aumentam a sensação de ardor), portanto eu tinha que evitar vinhos tânicos e com elevado grau de álcool se optasse por "apimentar a relação".

Munido de dois vinhos emblemáticos para enfrentar essa culinária muito rica em especiarias e pimentas com diversas intensidades, lá fui eu disposto a encarar esta difícil armadilha do mundo do vinho...

Na maleta estavam:


Enquanto aguardávamos o serviço do vinho, as EXCELENTES Golden Baskets (cestinhas crocantes recheadas de frango, milho e camarão) sumiram rapidamente...

Quando a outra entrada chegou (anéis de lula crocantes empanados em tempurá de cerveja, acompanhados do ótimo molho de pimenta coreana Kimchi), o Oberhauser Leistenberg Riesling Kabinett 2007 (www.decanter.com.br) do produtor Donnhoff se fez presente em todo seu esplendor, com aromas cítricos (lima), mineralidade incrível (pedra molhada?) e uma acidez marcante, tudo regado a 8,5% de álcool. A lula crocante pedia um vinho com acidez elevada para "lavar a gordura" e o molho apimentado com raspas de limão implorava por um toque de frescor, doçura e... um aroma cítrico -a "cereja do bolo"! - casamento perfeito!

Os pratos seguintes vieram em tempos diferentes, pois a idéia é compartilhá-los; o Wok de porco e abacaxi com manjericão tinha mais doçura e especiarias (gengibre?), que já equilibravam o tempero discretamente picante. Aqui o Riesling não conseguiu acompanhar o peso e perdeu para o "doce" do prato. 
Nos dois Woks seguintes, o primeiro com shimeji, azeitona, castanha de caju e maçã verde e o segundo de lula, pato crocante, manjericão e cenoura, o Riesling saiu-se melhor, principalmente com o último.

Era hora de abrir o Gewurztraminer Wintzenhein 2005 do Zind Humbrecht, pensei... Vamos experimentar e ver a diferença, pois seria teoricamente impactante... E que mudança! 
Coloração amarelada com reflexos dourados. Aromas de rosas, lichia, acidez beeem mais baixa e 14,5% de álcool!! Devo admitir que depois de tamanha elegância e acidez do Riesling, o segundo vinho causou certo desapontamento...
Este desapontamento transformou-se numa boa harmonização quando o primeiro Wok que não havia combinado com o Riesling voltou à tona, agora com uma "escolta" à altura de seu peso.

Terminei a refeição com um trio de creme brulèe (apresentado em 3 versões: capim limão, gengibre e chá tailandês), infelizmente sem um vinho de sobremesa...

Com a certeza de voltar e tentar outros pratos e harmonizações, inclusive com o famoso Curry de Pato, o restaurante me deixou uma ótima impressão, além de ter preços muito razoáveis para o padrão paulistano (com exceção à taxa de rolha de 40 reais).

Ah! A safra 2007 do Oberhauser Leistenberg Riesling Kabinett está esgotada, agora só a 2010 está disponível. Para os que gostam de pontuações, as safras receberam a mesma nota do Parker (91 pontos), mas na minha humilde opinião, vou comprar e eu mesmo comparar...

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