29 de maio de 2013

La vie en Rosé

Vamos falar de Rosés?

Apreciados por muitos, de leigos a conhecedores, este vinho singular tem sua origem ligada ao Sul da França, mais precisamente à bela região da Provence.
campos de lavanda

Por volta de 600 a.C., os gregos fócios estabeleceram-se na região e fundaram Massilia (Marselha), plantando em suas encostas as primeiras videiras, fazendo vinhos de cor clara aparentemente semelhante aos rosés atuais (vin clair ou Clairet), pois a técnica de contato com as cascas para dar cor ao vinho tinto (maceração), ainda era pouco valorizada. Por mais estranho que possa parecer, nossos antepassados falavam de vinhos negros (mais escuros), destinados aos escravos e vinhos claros (Clairet), reservados aos nobres e à Igreja.

Aqui cabe uma explicação sobre um termo que sempre gera confusão...

O termo inglês Claret, derivado do Clairet, tornou-se famoso por ser sinônimo de vinhos originários de Bordeaux, pois estes vinhos importados pela Inglaterra mantinham as características dos vinhos "tintos" de qualidade produzidos na França, onde se mantinha um período curto de contato com as cascas, originando vinhos mais pálidos.
Bordeaux Clairet
crédito: www.papillestetpupilles.fr
Até os dias de hoje, pequenas quantidades de vinhos rosados mais encorpados de Bordeaux são encontrados e vendidos sob a apelação Bordeaux Clairet.


O vinho rosé começou a ganhar popularidade após a Segunda Guerra Mundial, quando a produção, massificada nas duas décadas seguintes, serviu para aplacar a sede de turistas e habitantes europeus, sem preocupação com incremento de qualidade. Qualquer que fosse o país, a ordem era produzir rosés... rosados na Espanha, claretes em Portugal (quem se lembra do Mateus e do Lancers???) e por aí foi...
O resultado é um filme que vivi recentemente com os "vinhos alemães da garrafa azul": consumidores começam bebendo vinhos mais simples, fáceis e disponíveis em um primeiro momento e, progressivamente mais exigentes, acabam deixando de lado a grande maioria de produtos de qualidade discutível. A fama do vinho acaba tornando-se a sua ruína. Que trágico, não?

Felizmente, como tudo na vida, no meio da produção em massa de rosés, começaram a se destacar os melhores produtores, e a busca contínua pela qualidade após um período de ostracismo culminou na criação das regiões demarcadas (AOC) Cotes de Provence em 1977, Coteaux d'Aix en Provence (1985) e Coteaux Varois en Provence (1993). Consequentemente, a Provence tornou - se a referência mundial para vinhos rosés, sendo atualmente responsável por aproximadamente 10 % de todo rosé produzido no mundo (detalhe: exportam somente 11% da produção - os franceses bebem quase tudo!).
Podemos dizer que nos últimos 20 anos, a região modificou seu perfil produtor de grandes quantidades, e passou a ditar regras e normas de qualidade em vinhos rosés.

Vento Mistral
Agora, uma pergunta: Provence não é no sul da França? Sim. Local quente, mediterrâneo? Sim. A quantidade absurda de Sol não levaria a um amadurecimento da fruta e consequente acúmulo de açúcar em detrimento da acidez? Sim!!! E porque os vinhos da Provence têm um inacreditável frescor, devido à acidez pronunciada???
Graças a um fenômeno climático chamado Vento Mistral...
A diferença pressórica criada entre as áreas frias do mar do Norte e a área quente do Mar Mediterrâneo, origina este vento extremamente frio e seco, que flui do Norte para o Sul, criando uma amplitude térmica importante entre dia e noite, "refrescando" as uvas e retendo a acidez. Ou seja, vinhos com açúcar suficiente para a produção de álcool e acidez refrescante... que bênção!

Apesar do privilégio geográfico, a Provence não é o único local produtor de vinhos rosés de qualidade, incluindo outras regiões dentro da própria França, além da Itália, Espanha, Portugal e Novo Mundo. Tudo depende das questões básicas: local, produtor, método de vinificação, etc.

Falando de métodos de vinificação, os rosés podem ser feitos de 2 maneiras básicas:

1ª) prensagem direta: as uvas tintas são esmagadas, o suco é mantido em contato com as cascas por 6-8h para não extrair muitos taninos e então separado por prensagem ou drenagem (trasfega), e conduzido à fermentação; este método extrai pouca cor, se bem executado, e produz rosés mais delicados, de coloração salmão-alaranjada.
Se o período de contato com as cascas for mais longo, o rosé terá coloração mais intensa, e consequentemente, mais tanino.

2ª)Sangria ou saignée: as uvas tintas não passam pela prensa; ficam em contato com as cascas, segue-se a fermentação, como um tinto, e num determinado momento (depende do produtor), somente o líquido é separado (ou "sangrado") para prosseguir a fermentação. Quando TODO o líquido é retirado, este método é conhecido como Drawning Off ou Extração. Quando PARTE do líquido é retirado, o rosé é um subproduto da vinificação de um tinto, pois a fermentação irá prosseguir paralelamente à do rosé. Atenção: devemos considerar que as uvas escolhidas para fazer um rosé têm menos cor e mais acidez que aquelas escolhidas para os tintos, portanto geralmente rosés feitos como subprodutos de tintos podem ser inferiores...
Como estes vinhos passam tempo maior em contato com as cascas e com o início da fermentação, adquirem uma coloração mais intensa (groselha), bem como uma quantidade maior de taninos.

Na "batalha" entre os dois métodos, não há vencedores, e sim estilos de vinhos diferentes, pois desde que bem conduzidos, teremos bons exemplares em ambos. O primeiro de coloração mais pálida, com muito refinamento, leve e fresco. O segundo com uma paleta aromática muitas vezes complexa, mais intenso e amplo na boca.

Observação: O Blending, ou a mistura de vinho tinto com vinho branco, é outra forma de fazer um vinho rosé, principalmente vinhos rosés baratos do Novo Mundo; porém não é permitida na Europa, com exceção de... Champagne Rosé!


E falando em Rosés, vou comentar alguns que provei recentemente na Expovinis e entre "umas e outras":


  • Château de Pourcieux Rosé 2011 (www.cantu.com.br): corte de Syrah, Grenache e Cinsault, vinificado no método tradicional de Provence, com prensagem direta cuidadosa e temperatura controlada, este rosé pentacampeão das Expovinis apresenta notas de frutas vermelhas frescas (morango, framboesa), mas chama atenção pela mineralidade a acidez na boca. Imagino a harmonização com um refogado de Lagosta ou mesmo uma moqueca de camarão...
  • Saint Qvinis Rosé 2011 (www.vinho-frances-sao-paulo.com.br): importado pela Cave Jadot, este rosé da Provence é feito com 50% de Cinsault e 50 % de Grenache. De cor salmão intensa, apresenta notas de frutas vermelhas e brancas, bastante frescor e harmonizou super bem com canapés em um jantar descontraído! Bravo!

  • Principal Tête de Cuvée Rosé 2009 (Ideal Drinks, tel: 2061-8529): um Rosé de Portugal, da Bairrada, 100% Pinot Noir. Como eu não conhecia o vinho (Santa ignorância, Batman!), devo confessar que iniciei a degustação com ressalvas... Pois minha única referência de Pinot Noir na bairrada eram os (bons) vinhos de Campolargo. Porém, a coloração rósea clara com toques alaranjados e brilho me chamou logo a atenção. No aspecto olfativo, mais surpresas: notas de frutas vermelhas bem maduras, especiarias, toques minerais e uma ponta floral, muito complexo. Na boca apresentava uma excelente acidez, contrabalançando perfeitamente os 12,5% de álcool. Diferentemente da maioria dos rosés, esse vinho estagia um ano em barricas francesas de 2000 litros, e outro ano em garrafa antes de ser comercializado.
Depois de ter criado no fechado mercado suiço a Roger Dubuis, marca própria de relógios caríssimos e exclusivos, o português Carlos Dias vendeu-a ao grupo Richemont (Cartier, Montblanc, Vacheron e outras marcas que dispensam comentários) e para nossa sorte, resolveu investir em vitivinicultura na sua terra natal. Criada em 2010, a IdealDrinks conta com belíssimas propriedades no Minho, Dão e Bairrada. Está no caminho certo...




  • Rioja Bordón Rosado 2012 (sem importador): 70% Tempranillo e 30% Viura; vinho espanhol interessante, vinificado com 12h de contato das cascas, e fermentado a uma temperatura de 20°C. A presença de açúcar residual (8g/l) se faz presente, bem como o álcool (13%), contrabalançados parcialmente pela acidez (eu gostaria de um pouco mais), o que traz um potencial gastronômico a esse vinho.






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