24 de maio de 2013

Expovinis 2013


A Expovinis, evento realizado anualmente na cidade de São Paulo, ocupa posição de destaque, tanto no continente americano, onde é o maior do segmento, quanto mundial, considerado um dos 10 eventos mais importantes no mundo para o setor, segundo a responsável pela organização, a Exponor (só como detalhe, a partir de 2014 a organização será responsabilidade da SIAL Brasil Feiras)

Para se ter uma idéia da dimensão da feira, nesta 17ª edição foi superada a marca de 20 mil visitantes nos 3 dias. Foram mais de 400 expositores espalhados nos 15.000 metros quadrados no pavilhão Azul da Expo Center Norte, apresentando ao redor de 5.000 rótulos. Estima-se em torno de 20 milhões de reais gerados em negócios imediatos e futuros.



Nos 3 dias da feira pode-se participar de várias degustações, conhecer produtores (uma das atividades que mais gosto), provar novidades e avaliar vinhos; sendo assim, farei meus destaques em separado, iniciando hoje com as Champagnes. E vivam as borbulhas!

  • Lombard e Cie: reencontrei-me com o gerente de exportação Paul - Henri Perrot, que havia conhecido no dia anterior no Encontro de Vinhos OFF; desta vez, com uma linha completa. 
A Lombard e Cie é uma propriedade familiar, situada no coração de Champagne (Epernay), fundada em 1925. Produzindo 1,5 milhão de garrafas/ano, enquadra-se como casa de Champagne de porte médio (imaginem a produção das casa de grande porte!), o que é um trunfo na escolha dos parceiros fornecedores das uvas - todos "crus" (propriedades de reconhecida qualidade).

A seqüência de abertura das garrafas foi revelando champagnes de altíssima qualidade, desde a Brut "de entrada", com notas cítricas e de brioche bem evidentes, passando pela Rosé premier cru elegante e gastronômica. Porém, na minha opinião, o auge foi atingido na degustação da Millesime 2008 e na Brut Grand Cru, ambas elegantes e equilibradas; Champagnes com aromas clássicos, esbanjando complexidade...mescla de frutas cítricas, flores e frutas secas.
Um problema que deve ser solucionado em breve: sem importador!
  • Dom Caudron: apresentados pelo Directeur David Sibillotte e pela simpática e competente Patricia Nudelman, foi a primeira casa de Champagne que conheci apresentando uma Champagne 100% Pinot Meunier. Retornaremos a falar no final desta postagem....

Aqui cabe uma historinha sobre a Champagne...

Champagne é uma região no Nordeste da França, localizada a 140 km de Paris, famosa pelo seu vinho espumante, referência de qualidade para todos os demais espumantes do mundo. Em nenhum outro local consegue-se uma combinação tão perfeita entre frescor, complexidade, delicadeza e força que os melhores champagnes apresentam.
Nesta região de médias de temperatura baixas (16ºC), produtores têm que enfrentar condições climáticas severas, como congelamento no inverno e geadas de primavera, que podem afetar as vinhas no período de crescimento. Mesmo nos anos mais quentes, os níveis de açúcar das uvas permanecem baixos e os níveis de acidez, muito altos, impossibilitando a utilização destas uvas para a produção dos vinhos comuns, não espumantes. 
Explico: pense na uva de uma forma simples; é uma fruta, e como tal, necessita amadurecer para ficar doce, certo? Pois bem, em Champagne, devido ao clima frio, isto não ocorre, e a fruta continua "azedinha", ou seja, ácida.
E este é um dos segredos para a produção de champagne: faz-se inicialmente o chamado "vinho base" com estas uvas de acidez alta (imagine um vinho beeem ácido e seco). Uma parte deste vinho é guardada e utilizada para ser "misturada" aos vinhos base de outras safras, ou tecnicamente falando, utilizada para o blend, outro segredo da champagne. E por quê? Aqueles "caprichos" do clima da região levaram os produtores a empregar esta técnica de misturar vinhos de várias safras para manter uma consistência ao longo dos anos. Por isso, a maioria dos champagnes não vem com safra e espelham exatamente o estilo daquele produtor específico. Para se ter uma idéia, os produtores maiores chegam a utilizar mais de 70 diferentes vinhos-base nos seus blends.
E não pára por aí. Depois de feito o blend ou assemblage, o produto vai para a garrafa realizar uma segunda fermentação.Junto com o vinho inocula-se uma mistura de vinho, açúcar, leveduras e nutrientes para leveduras, tampa-se com um dispositivo semelhante à tampa de garrafa de refrigerante e aguarda-se...
"crown-cap"

O que acontece? Imagine juntar um monte de leveduras com alimento em um meio líquido, fechado, por 6-8 semanas, com temperatura controlada, em posição horizontal? Todo o gás carbônico gerado no novo processo de fermentação fica lá aprisionado e dissolve-se no líquido, criando... as borbulhas!!!(e uma pressão enorme).
Mas não são só as borbulhas que ficam no "rastro" da segunda fermentação... as leveduras mortas ao final do processo se rompem e "despejam" no líquido ao longo do tempo (meses a anos) proteínas e outros compostos que vão  contribuir com os sabores do champagne (aromas de panificação, brioche e tostados, dentre outros).
Aí perguntamos: os sedimentos formados terão de ser removidos, certo? Sim, ninguém quer beber resíduos de leveduras mortas...
Antigamente, o jeito de mobilizar os sedimentos até a tampa para serem retirados envolvia um processo manual de girar a garrafa um quarto de volta e ao mesmo tempo ir verticalizando a mesma nos chamados pulpitres (duas chapas de madeira encostadas uma na outra formando um triângulo com o solo, e vários orifícios onde cabia o pescoço da garrafa). Este processo durava 8 semanas até se completar.

Atualmente, máquinas chamadas gyropalettes fazem este serviço, chamado Remuage, em 8 dias
Acabou? Não! A retirada da tampinha com os sedimentos é feita com uma máquina que congela o gargalo e os sedimentos, retira a tampa com os resíduos presos, rapidamente coloca o chamado liquer d'expedition, uma mistura de vinho e açúcar, que vai determinar se o champagne será mais ou menos doce (é o que vemos nos rótulos brut, demi sec, etc.) e automaticamente também coloca a rolha com a gaiola.

Processo longo, não? E as uvas usadas em Champagne são duas tintas (Pinot Noir e Pinot Meunier) e uma branca (Chardonnay), sendo que para cada variedade existe um local específico em Champagne. Generalizando, a Pinot Noir é a uva dominante na Montagne de Reims, a Chardonnay reina absoluta na Côte des Blancs e a Pinot Meunier (de amadurecimento mais precoce e portanto menos afetada pelas intempéries do inverno), encontra no solo argiloso do Vallée de la Marne o território ideal. 

A Pinot Noir contribui com o corpo, enquanto que a Chardonnay, que origina vinhos mais leves, com a acidez, caráter floral e cítrico.
E a Pinot Meunier? Muitas vezes não entra na elaboração dos champagnes, pois alega-se que seu caráter frutado e "fácil de beber" não confere longevidade ao vinho, reservando-a para champagnes que devem ser degustadas enquanto jovens. Por causa disso, poucos produtores a valorizam o suficiente para produzir champagnes com esta varietal dominante no blend, com excelentes exceções, dentre os quais este excelente Dom Caudron.

Instalada no coração do Vale do Marne, local onde a Pinot Meunier encontra o melhor local para se desenvolver. A Dom Caudron, criada em 1929 pelo pároco do vilarejo de Passy Grigny através da reunião de viticultores, hoje conta com 75 membros e um vinhedo de 120 hectares. Os vinhedos orgânicos, de colheita manual, são conduzidos em solos argilo- calcáreos e argilo- arenosos, e a vinificação tradicional é conduzida em aço inox e para a Millesime e Cuvée Cornalyne, 50 % em barricas de madeira. O envelhecimento varia de 3 anos (Brut, de entrada) a 6 anos (Millésime). São vinhos prontos para beber.

O primeiro champagne apresentado (Brut, 100% Pinot Meunier) apresentava uma coloração amarelada com reflexos dourados, perlage intensa e aromas extremamente diferentes, além dos habituais. Estavam lá a panificação, os brioches, os frutados puxando não para cítricos, e sim para frutas cozidas do tipo pêssego, maçã, com toque de mineralidade. Extremamente gastronômico, para mim foi uma boa surpresa.
A degustação prosseguiu com a saborosa versão Brut Rosé, que incorpora 10% de Chardonnay ao blend. Coloração salmão que chama a atenção, com excelente volume de boca e aromas de frutos vermelhos maduros, brioche e tostados.
A Millesime 2006 é impressionante: envelhecida por 6 anos, este corte de 50% Pinot Meunier e 50% Chardonnay originou um champagne muito complexo, que demandaria um tempo grande para ser apreciado na sua plenitude, tamanha gama de aromas apresentada: notas de frutas em compota, café, tostados, mel, especiarias e frutas secas, dentre outros.

Patricia Nudelman (Patricia@vindimawineconsulting.com.br) está à procura de um representante em São Paulo, porém quem estiver em Maceió pode encontrar a Dom Caudron no Supermercado Palato


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