29 de maio de 2013

La vie en Rosé

Vamos falar de Rosés?

Apreciados por muitos, de leigos a conhecedores, este vinho singular tem sua origem ligada ao Sul da França, mais precisamente à bela região da Provence.
campos de lavanda

Por volta de 600 a.C., os gregos fócios estabeleceram-se na região e fundaram Massilia (Marselha), plantando em suas encostas as primeiras videiras, fazendo vinhos de cor clara aparentemente semelhante aos rosés atuais (vin clair ou Clairet), pois a técnica de contato com as cascas para dar cor ao vinho tinto (maceração), ainda era pouco valorizada. Por mais estranho que possa parecer, nossos antepassados falavam de vinhos negros (mais escuros), destinados aos escravos e vinhos claros (Clairet), reservados aos nobres e à Igreja.

Aqui cabe uma explicação sobre um termo que sempre gera confusão...

O termo inglês Claret, derivado do Clairet, tornou-se famoso por ser sinônimo de vinhos originários de Bordeaux, pois estes vinhos importados pela Inglaterra mantinham as características dos vinhos "tintos" de qualidade produzidos na França, onde se mantinha um período curto de contato com as cascas, originando vinhos mais pálidos.
Bordeaux Clairet
crédito: www.papillestetpupilles.fr
Até os dias de hoje, pequenas quantidades de vinhos rosados mais encorpados de Bordeaux são encontrados e vendidos sob a apelação Bordeaux Clairet.


O vinho rosé começou a ganhar popularidade após a Segunda Guerra Mundial, quando a produção, massificada nas duas décadas seguintes, serviu para aplacar a sede de turistas e habitantes europeus, sem preocupação com incremento de qualidade. Qualquer que fosse o país, a ordem era produzir rosés... rosados na Espanha, claretes em Portugal (quem se lembra do Mateus e do Lancers???) e por aí foi...
O resultado é um filme que vivi recentemente com os "vinhos alemães da garrafa azul": consumidores começam bebendo vinhos mais simples, fáceis e disponíveis em um primeiro momento e, progressivamente mais exigentes, acabam deixando de lado a grande maioria de produtos de qualidade discutível. A fama do vinho acaba tornando-se a sua ruína. Que trágico, não?

Felizmente, como tudo na vida, no meio da produção em massa de rosés, começaram a se destacar os melhores produtores, e a busca contínua pela qualidade após um período de ostracismo culminou na criação das regiões demarcadas (AOC) Cotes de Provence em 1977, Coteaux d'Aix en Provence (1985) e Coteaux Varois en Provence (1993). Consequentemente, a Provence tornou - se a referência mundial para vinhos rosés, sendo atualmente responsável por aproximadamente 10 % de todo rosé produzido no mundo (detalhe: exportam somente 11% da produção - os franceses bebem quase tudo!).
Podemos dizer que nos últimos 20 anos, a região modificou seu perfil produtor de grandes quantidades, e passou a ditar regras e normas de qualidade em vinhos rosés.

Vento Mistral
Agora, uma pergunta: Provence não é no sul da França? Sim. Local quente, mediterrâneo? Sim. A quantidade absurda de Sol não levaria a um amadurecimento da fruta e consequente acúmulo de açúcar em detrimento da acidez? Sim!!! E porque os vinhos da Provence têm um inacreditável frescor, devido à acidez pronunciada???
Graças a um fenômeno climático chamado Vento Mistral...
A diferença pressórica criada entre as áreas frias do mar do Norte e a área quente do Mar Mediterrâneo, origina este vento extremamente frio e seco, que flui do Norte para o Sul, criando uma amplitude térmica importante entre dia e noite, "refrescando" as uvas e retendo a acidez. Ou seja, vinhos com açúcar suficiente para a produção de álcool e acidez refrescante... que bênção!

Apesar do privilégio geográfico, a Provence não é o único local produtor de vinhos rosés de qualidade, incluindo outras regiões dentro da própria França, além da Itália, Espanha, Portugal e Novo Mundo. Tudo depende das questões básicas: local, produtor, método de vinificação, etc.

Falando de métodos de vinificação, os rosés podem ser feitos de 2 maneiras básicas:

1ª) prensagem direta: as uvas tintas são esmagadas, o suco é mantido em contato com as cascas por 6-8h para não extrair muitos taninos e então separado por prensagem ou drenagem (trasfega), e conduzido à fermentação; este método extrai pouca cor, se bem executado, e produz rosés mais delicados, de coloração salmão-alaranjada.
Se o período de contato com as cascas for mais longo, o rosé terá coloração mais intensa, e consequentemente, mais tanino.

2ª)Sangria ou saignée: as uvas tintas não passam pela prensa; ficam em contato com as cascas, segue-se a fermentação, como um tinto, e num determinado momento (depende do produtor), somente o líquido é separado (ou "sangrado") para prosseguir a fermentação. Quando TODO o líquido é retirado, este método é conhecido como Drawning Off ou Extração. Quando PARTE do líquido é retirado, o rosé é um subproduto da vinificação de um tinto, pois a fermentação irá prosseguir paralelamente à do rosé. Atenção: devemos considerar que as uvas escolhidas para fazer um rosé têm menos cor e mais acidez que aquelas escolhidas para os tintos, portanto geralmente rosés feitos como subprodutos de tintos podem ser inferiores...
Como estes vinhos passam tempo maior em contato com as cascas e com o início da fermentação, adquirem uma coloração mais intensa (groselha), bem como uma quantidade maior de taninos.

Na "batalha" entre os dois métodos, não há vencedores, e sim estilos de vinhos diferentes, pois desde que bem conduzidos, teremos bons exemplares em ambos. O primeiro de coloração mais pálida, com muito refinamento, leve e fresco. O segundo com uma paleta aromática muitas vezes complexa, mais intenso e amplo na boca.

Observação: O Blending, ou a mistura de vinho tinto com vinho branco, é outra forma de fazer um vinho rosé, principalmente vinhos rosés baratos do Novo Mundo; porém não é permitida na Europa, com exceção de... Champagne Rosé!


E falando em Rosés, vou comentar alguns que provei recentemente na Expovinis e entre "umas e outras":


  • Château de Pourcieux Rosé 2011 (www.cantu.com.br): corte de Syrah, Grenache e Cinsault, vinificado no método tradicional de Provence, com prensagem direta cuidadosa e temperatura controlada, este rosé pentacampeão das Expovinis apresenta notas de frutas vermelhas frescas (morango, framboesa), mas chama atenção pela mineralidade a acidez na boca. Imagino a harmonização com um refogado de Lagosta ou mesmo uma moqueca de camarão...
  • Saint Qvinis Rosé 2011 (www.vinho-frances-sao-paulo.com.br): importado pela Cave Jadot, este rosé da Provence é feito com 50% de Cinsault e 50 % de Grenache. De cor salmão intensa, apresenta notas de frutas vermelhas e brancas, bastante frescor e harmonizou super bem com canapés em um jantar descontraído! Bravo!

  • Principal Tête de Cuvée Rosé 2009 (Ideal Drinks, tel: 2061-8529): um Rosé de Portugal, da Bairrada, 100% Pinot Noir. Como eu não conhecia o vinho (Santa ignorância, Batman!), devo confessar que iniciei a degustação com ressalvas... Pois minha única referência de Pinot Noir na bairrada eram os (bons) vinhos de Campolargo. Porém, a coloração rósea clara com toques alaranjados e brilho me chamou logo a atenção. No aspecto olfativo, mais surpresas: notas de frutas vermelhas bem maduras, especiarias, toques minerais e uma ponta floral, muito complexo. Na boca apresentava uma excelente acidez, contrabalançando perfeitamente os 12,5% de álcool. Diferentemente da maioria dos rosés, esse vinho estagia um ano em barricas francesas de 2000 litros, e outro ano em garrafa antes de ser comercializado.
Depois de ter criado no fechado mercado suiço a Roger Dubuis, marca própria de relógios caríssimos e exclusivos, o português Carlos Dias vendeu-a ao grupo Richemont (Cartier, Montblanc, Vacheron e outras marcas que dispensam comentários) e para nossa sorte, resolveu investir em vitivinicultura na sua terra natal. Criada em 2010, a IdealDrinks conta com belíssimas propriedades no Minho, Dão e Bairrada. Está no caminho certo...




  • Rioja Bordón Rosado 2012 (sem importador): 70% Tempranillo e 30% Viura; vinho espanhol interessante, vinificado com 12h de contato das cascas, e fermentado a uma temperatura de 20°C. A presença de açúcar residual (8g/l) se faz presente, bem como o álcool (13%), contrabalançados parcialmente pela acidez (eu gostaria de um pouco mais), o que traz um potencial gastronômico a esse vinho.






27 de maio de 2013

White Balance...

Continuando o tour pela Expovinis... muitos brancos, muitos estilos, muitas degustações e difícil selecionar este ou aquele sem ser injusto e faltar algum...

De qualquer forma vou falar daqueles que, por uma razão ou outra, gostei mais...

Então, lá vai a minha seleção de vinhos brancos:

  • Sauvignon Blanc Reserva 2012, Casas del Bosque, Valle de Casablanca (www.obraprimaimportadora.com.br): 100% Sauvignon Blanc, ótimo preço, minha seleção bateu com um dos escolhidos no "TOP TEN" da Expovinis. 

De elaboração cuidadosa, este vinho foi criado a partir da utilização de 3 clones diferentes da variedade, vindos de 2 terroirs distintos; uma pequena parcela (7%) do mosto foi fermentado em barricas de carvalho francês de 4º e 5º uso, depois adicionado a parcela maior fermentada em tanques de aço inox. Este Sauvignon Blanc de coloração verdeal apresenta notas cítricas e herbáceas (sem agressividade), com uma mineralidade evidente, acidez alta, com excepcional frescor, bastante agradável. A safra disponibilizada no Brasil é a 2011, cuja elaboração é igual, e foi destaque na Decanter (revista inglesa), restando confirmar se o frescor, essencial neste vinho, se manterá presente, e até quando. Degustarei a safra 2011 nesta semana e trarei as minha impressões!


  • Vina Esmeralda 2012, Torres (www.devinum.com.br): 15% Gewurztraminer e 85% Moscatel de Alexandria, este exótico vinho da vinícola Torres na Catalunha têm aromas de rosas, lichia e cítricos, com boa acidez e não é enjoativo; muito gastronômico.

Vinícola Torres em Penedés
A bodega de propriedade da família Torres foi fundada em 1870 e atualmente conta com 1300 hectares de vinhedos próprios distribuídos nas regiões de Catalunha, Penedés, Priorato, Ribera del Duero e Rioja, além de vinícolas no Chile e na Califórnia. Nos anos pós -Phylloxera, a região do Penedés apoiava-se na produção de vinhos brancos de Parrelada, Xarel-Lo e Macabeu; nos anos recentes a Torres liderou uma tendência de implantação de variedades brancas internacionais, envelhecendo-as em barricas de carvalho.




  • Pouilly Fumé Le Vin du Desert, 2011, Regis Minet (www.franceoverseas.com): 100% Sauvignon Blanc; estilo Loire, com aromas minerais, pedra molhada, aliada a toques herbáceos (grama cortada) e uma nota defumada; ótima acidez e médio corpo.
    Regis Minet

Regis Minet representa a terceira geração de enólogos da família, que possue uma propriedade de 11 hectares conduzidos em sistema "Lutte raisonnée", que visa, basicamente, a redução do uso de produtos químicos no vinhedo. A colheita é manual, e a vinificação transcorre em tanques de aço inoxidável com temperatura controlada (menos de 20°C) por 3 semanas, onde após permanece em contato com as borras por 6 meses.
Este vinho tem todos pré requisitos para uma excelente harmonização com pescados brasileiros preparados in natura, ou mesmo uma moqueca capixaba! Hummm!

  • Malhadinha Branco 2011, Herdade da Malhadinha Nova (www.epice.com.br): 50% Arinto, 35% Viognier e 15% Chardonnay. Gostei muito deste vinho! Coloração palha, com aromas de fruta madura e uma nota floral perfeitamente integrados com os aromas de madeira, com final longo e mineral. Imagino-o harmonizando com um Polvo a Lagareiro, que inicialmente é cozido e depois grelhado, acompanhado de batatas ao murro, temperos e azeite...
A Herdade da Malhadinha Nova é uma propriedade familiar, localizada no Alentejo, Portugal, e tem como característica peculiar os desenhos nos rótulos, feitos pelas crianças da família. Como cada uma das crianças "cuida" de um rótulo de determinado vinho, segundo o competentíssimo enólogo Nuno Gonzalez, a cada safra que passa podemos ver a evolução no traço infantil- sensacional!
Isso transmite a paixão e o cuidado que a herdade tem com seus vinhos, todos extremamente bem-feitos. 
Além da magnitude dos seus vinhos, na Malhadinha criam-se, em liberdade, animais de raças autóctones, como o porco preto alimentado 100% de bolota, a vaca e os cavalos puro sangue alentejanos. Para completar, a herdade têm um Country House e Spa, restaurante... é mole? Natureza, excelentes vinhos, boa comida... Vou colocar a Herdade da Malhadinha Nova no roteiro da próxima viagem a Portugal!



  • Roc de Foc 2011, Clos Pons (www.guacira.com.br): 100% Macabeu, este vinho foi a minha maior surpresa... Costers Del Segre é uma D.O. (Denominação de Origem) para vinhos espanhola, localizada na região da Catalunha, subdividida em várias zonas de produção. Clos Pons localiza-se em Les Garrigues, local árido, de baixa pluviosidade, com altitudes variando de 500 a 700 metros e solos pobres, lugar ideal para elaboração de vinhos de alta qualidade.

Este vinho varietal de Macabeu, também chamada Viura em Rioja, foi elaborado cuidadosamente, a começar da colheita manual, seguida pela fermentação espontânea em barricas de madeira e envelhecimento por 12 meses em barricas francesas de 2.000 litros, com uma produção anual de somente 5.000 garrafas. O resultado é um vinho extremamente equilibrado, com aromas de frutas maduras, ótima acidez, contraponto para a sua cremosidade, toques amanteigados e ótimo volume de boca. Final longo...
Obs: a importadora traz atualmente a linha dos vinhos tintos, com planos de trazer os brancos a curto/médio prazo... vou ficar aguardando!




E a título de curiosidade, fazendo justiça a um vinho que procurava degustar há muito tempo, gostaria de mencionar o primeiro Menetou Salon que bebi, do produtor Alan Assadet. Este produtor e sua esposa Véronique cuidam de 10 hectares de terra na região, onde produzem vinhos brancos (2 terços da produção), rosés e tintos. No aroma, fruta, mineralidade, pedra de isqueiro; na boca apresentava ótima acidez e bom corpo. 
Este vinho vem de uma denominação pouco conhecida, porém em sua melhor forma, rivaliza com seus conhecidos e badalados vizinhos Pouilly Fumé e Sancerre, sendo uma conhecida alternativa de preço acessível na França. Uma pena praticamente inexistirem no Brasil. Agradeço a Sandra Vaucel, proprietária da Casa do Vinho Francês em Goiânia (www.facebook.com/acasadovinhofrances), por tê-lo trazido à Expovinis, junto com outros excelentes vinhos.

Estas regiões, não muito distantes de Chablis, são conhecidas por também apresentar afloramentos de solo "Kimmeridgiano", que tem como característica a presença de sedimentos de calcário ricos em conchas, pois na era secundária estavam todas sob o mar. No final do período Jurássico, há cerca de 150 milhões de anos, o mar desapareceu e eis que sobraram estes sedimentos, que transmitem uma característica mineralidade aos vinhos da região.
solo Kimmeridgiano e suas conchinhas...
(www.menetou-salon.com)


24 de maio de 2013

Expovinis 2013


A Expovinis, evento realizado anualmente na cidade de São Paulo, ocupa posição de destaque, tanto no continente americano, onde é o maior do segmento, quanto mundial, considerado um dos 10 eventos mais importantes no mundo para o setor, segundo a responsável pela organização, a Exponor (só como detalhe, a partir de 2014 a organização será responsabilidade da SIAL Brasil Feiras)

Para se ter uma idéia da dimensão da feira, nesta 17ª edição foi superada a marca de 20 mil visitantes nos 3 dias. Foram mais de 400 expositores espalhados nos 15.000 metros quadrados no pavilhão Azul da Expo Center Norte, apresentando ao redor de 5.000 rótulos. Estima-se em torno de 20 milhões de reais gerados em negócios imediatos e futuros.



Nos 3 dias da feira pode-se participar de várias degustações, conhecer produtores (uma das atividades que mais gosto), provar novidades e avaliar vinhos; sendo assim, farei meus destaques em separado, iniciando hoje com as Champagnes. E vivam as borbulhas!

  • Lombard e Cie: reencontrei-me com o gerente de exportação Paul - Henri Perrot, que havia conhecido no dia anterior no Encontro de Vinhos OFF; desta vez, com uma linha completa. 
A Lombard e Cie é uma propriedade familiar, situada no coração de Champagne (Epernay), fundada em 1925. Produzindo 1,5 milhão de garrafas/ano, enquadra-se como casa de Champagne de porte médio (imaginem a produção das casa de grande porte!), o que é um trunfo na escolha dos parceiros fornecedores das uvas - todos "crus" (propriedades de reconhecida qualidade).

A seqüência de abertura das garrafas foi revelando champagnes de altíssima qualidade, desde a Brut "de entrada", com notas cítricas e de brioche bem evidentes, passando pela Rosé premier cru elegante e gastronômica. Porém, na minha opinião, o auge foi atingido na degustação da Millesime 2008 e na Brut Grand Cru, ambas elegantes e equilibradas; Champagnes com aromas clássicos, esbanjando complexidade...mescla de frutas cítricas, flores e frutas secas.
Um problema que deve ser solucionado em breve: sem importador!
  • Dom Caudron: apresentados pelo Directeur David Sibillotte e pela simpática e competente Patricia Nudelman, foi a primeira casa de Champagne que conheci apresentando uma Champagne 100% Pinot Meunier. Retornaremos a falar no final desta postagem....

Aqui cabe uma historinha sobre a Champagne...

Champagne é uma região no Nordeste da França, localizada a 140 km de Paris, famosa pelo seu vinho espumante, referência de qualidade para todos os demais espumantes do mundo. Em nenhum outro local consegue-se uma combinação tão perfeita entre frescor, complexidade, delicadeza e força que os melhores champagnes apresentam.
Nesta região de médias de temperatura baixas (16ºC), produtores têm que enfrentar condições climáticas severas, como congelamento no inverno e geadas de primavera, que podem afetar as vinhas no período de crescimento. Mesmo nos anos mais quentes, os níveis de açúcar das uvas permanecem baixos e os níveis de acidez, muito altos, impossibilitando a utilização destas uvas para a produção dos vinhos comuns, não espumantes. 
Explico: pense na uva de uma forma simples; é uma fruta, e como tal, necessita amadurecer para ficar doce, certo? Pois bem, em Champagne, devido ao clima frio, isto não ocorre, e a fruta continua "azedinha", ou seja, ácida.
E este é um dos segredos para a produção de champagne: faz-se inicialmente o chamado "vinho base" com estas uvas de acidez alta (imagine um vinho beeem ácido e seco). Uma parte deste vinho é guardada e utilizada para ser "misturada" aos vinhos base de outras safras, ou tecnicamente falando, utilizada para o blend, outro segredo da champagne. E por quê? Aqueles "caprichos" do clima da região levaram os produtores a empregar esta técnica de misturar vinhos de várias safras para manter uma consistência ao longo dos anos. Por isso, a maioria dos champagnes não vem com safra e espelham exatamente o estilo daquele produtor específico. Para se ter uma idéia, os produtores maiores chegam a utilizar mais de 70 diferentes vinhos-base nos seus blends.
E não pára por aí. Depois de feito o blend ou assemblage, o produto vai para a garrafa realizar uma segunda fermentação.Junto com o vinho inocula-se uma mistura de vinho, açúcar, leveduras e nutrientes para leveduras, tampa-se com um dispositivo semelhante à tampa de garrafa de refrigerante e aguarda-se...
"crown-cap"

O que acontece? Imagine juntar um monte de leveduras com alimento em um meio líquido, fechado, por 6-8 semanas, com temperatura controlada, em posição horizontal? Todo o gás carbônico gerado no novo processo de fermentação fica lá aprisionado e dissolve-se no líquido, criando... as borbulhas!!!(e uma pressão enorme).
Mas não são só as borbulhas que ficam no "rastro" da segunda fermentação... as leveduras mortas ao final do processo se rompem e "despejam" no líquido ao longo do tempo (meses a anos) proteínas e outros compostos que vão  contribuir com os sabores do champagne (aromas de panificação, brioche e tostados, dentre outros).
Aí perguntamos: os sedimentos formados terão de ser removidos, certo? Sim, ninguém quer beber resíduos de leveduras mortas...
Antigamente, o jeito de mobilizar os sedimentos até a tampa para serem retirados envolvia um processo manual de girar a garrafa um quarto de volta e ao mesmo tempo ir verticalizando a mesma nos chamados pulpitres (duas chapas de madeira encostadas uma na outra formando um triângulo com o solo, e vários orifícios onde cabia o pescoço da garrafa). Este processo durava 8 semanas até se completar.

Atualmente, máquinas chamadas gyropalettes fazem este serviço, chamado Remuage, em 8 dias
Acabou? Não! A retirada da tampinha com os sedimentos é feita com uma máquina que congela o gargalo e os sedimentos, retira a tampa com os resíduos presos, rapidamente coloca o chamado liquer d'expedition, uma mistura de vinho e açúcar, que vai determinar se o champagne será mais ou menos doce (é o que vemos nos rótulos brut, demi sec, etc.) e automaticamente também coloca a rolha com a gaiola.

Processo longo, não? E as uvas usadas em Champagne são duas tintas (Pinot Noir e Pinot Meunier) e uma branca (Chardonnay), sendo que para cada variedade existe um local específico em Champagne. Generalizando, a Pinot Noir é a uva dominante na Montagne de Reims, a Chardonnay reina absoluta na Côte des Blancs e a Pinot Meunier (de amadurecimento mais precoce e portanto menos afetada pelas intempéries do inverno), encontra no solo argiloso do Vallée de la Marne o território ideal. 

A Pinot Noir contribui com o corpo, enquanto que a Chardonnay, que origina vinhos mais leves, com a acidez, caráter floral e cítrico.
E a Pinot Meunier? Muitas vezes não entra na elaboração dos champagnes, pois alega-se que seu caráter frutado e "fácil de beber" não confere longevidade ao vinho, reservando-a para champagnes que devem ser degustadas enquanto jovens. Por causa disso, poucos produtores a valorizam o suficiente para produzir champagnes com esta varietal dominante no blend, com excelentes exceções, dentre os quais este excelente Dom Caudron.

Instalada no coração do Vale do Marne, local onde a Pinot Meunier encontra o melhor local para se desenvolver. A Dom Caudron, criada em 1929 pelo pároco do vilarejo de Passy Grigny através da reunião de viticultores, hoje conta com 75 membros e um vinhedo de 120 hectares. Os vinhedos orgânicos, de colheita manual, são conduzidos em solos argilo- calcáreos e argilo- arenosos, e a vinificação tradicional é conduzida em aço inox e para a Millesime e Cuvée Cornalyne, 50 % em barricas de madeira. O envelhecimento varia de 3 anos (Brut, de entrada) a 6 anos (Millésime). São vinhos prontos para beber.

O primeiro champagne apresentado (Brut, 100% Pinot Meunier) apresentava uma coloração amarelada com reflexos dourados, perlage intensa e aromas extremamente diferentes, além dos habituais. Estavam lá a panificação, os brioches, os frutados puxando não para cítricos, e sim para frutas cozidas do tipo pêssego, maçã, com toque de mineralidade. Extremamente gastronômico, para mim foi uma boa surpresa.
A degustação prosseguiu com a saborosa versão Brut Rosé, que incorpora 10% de Chardonnay ao blend. Coloração salmão que chama a atenção, com excelente volume de boca e aromas de frutos vermelhos maduros, brioche e tostados.
A Millesime 2006 é impressionante: envelhecida por 6 anos, este corte de 50% Pinot Meunier e 50% Chardonnay originou um champagne muito complexo, que demandaria um tempo grande para ser apreciado na sua plenitude, tamanha gama de aromas apresentada: notas de frutas em compota, café, tostados, mel, especiarias e frutas secas, dentre outros.

Patricia Nudelman (Patricia@vindimawineconsulting.com.br) está à procura de um representante em São Paulo, porém quem estiver em Maceió pode encontrar a Dom Caudron no Supermercado Palato


14 de maio de 2013

Encontro de Vinhos OFF

Logo

www.encontrodevinhos.com.br

Realizado no último dia 23 de abril em São Paulo, o Encontro de Vinhos OFF 2013 ocorreu na Casa da Fazenda do Morumbi; essa relíquia do século XIX foi construída em 1813 por Diogo Antônio Feijó, também conhecido por Padre Feijó, que viria a se tornar Regente do Império em 1834 (época que D Pedro I abdicou, Pedro II tinha 5 anos... lembram -se dos livros de história?).

Bem, a casa foi habitada por diversas famílias paulistanas tradicionais até 1978, quando a Academia Brasileira de Arte, Cultura e História (ABACH) restaurou todo o imóvel, instalou sua sede e transformou o casarão e o jardim do entorno num espaço de cultura e lazer, onde procura promover a Arte, incentivar novos talentos, organizar exposições e eventos culturais.

Segundo Beto Duarte, um dos organizadores do evento em conjunto com Daniel Perches, a idéia do Encontro começou em 2009, quando organizou no Hotel San Raphael, centro de São Paulo, uma feira de vinhos simples, com o sommelier Victor Fernandes.
Em 2010 criou a Expovinhoff, um dia antes da Expovinis, no modelo das feiras off da Europa. Neste mesmo ano, já com Daniel como parceiro repetiu a feira de vinhos no Hotel San Raphael; em 2011 organizou o Encontro de Vinhos OFF, o Encontro de Vinhos no mesmo San Raphael e o Encontro de Ribeirão Preto.
A partir deste ponto o encontro foi crescendo e partindo para outras cidades, como Campinas, Rio de Janeiro, Curitiba e neste ano Belo Horizonte.
Beto Duarte acrescenta que a escolha da Casa da Fazenda do Morumbi traz um charme especial ao evento, pois neste histórico local conseguiram fazer um literal encontro de grandes vinhos com arte e música, indo de encontro com o pensamento (que compartilho) que a dupla têm em relação ao vinho.

E a cada edição o evento fica melhor; neste ano destaque para o credenciamento rápido e eficiente, com manobrista na porta. Água mineral Lindoya à vontade, degustação de queijos Tirolez e restaurante anexo. As atividades culturais em paralelo (pintura, artes cênicas), trouxeram uma descontração especial ao evento.

Como de costume, iniciei o meu trajeto pelos espumantes, com destaque especial a dois produtores de Champagne ainda sem importador no Brasil: Lombard & Cie (www.champagne-lombard.com) e Charles Collin (www.champagne-charlescollin.com)

Dentre os vinhos brancos, destaco um vinho que já conhecia, o Val de Sil 2009, trazido pela Peninsula (www.peninsulavinhos.com.br), da Denominação de Origem (D.O.) Valdeorras, Espanha. Feito com 100% de Godello, apresenta um caráter cítrico e mineral, com untuosidade e bom volume na boca- muito gastronômico!!!!

Passando para os tintos, minhas seleções ficaram com alguns vinhos do Espaço Valpolicella, com 11 produtores, alguns (infelizmente) sem importador no Brasil

- A simpatia de Marica Bonono da Monte de Frà acompanhou a qualidade de seus vinhos, com destaque para o Valpolicella Clássico Superiore e o Amarone Scarnocchio 2008, este último extremamente complexo, com aromas de frutas vermelhas (cereja), alcaçuz, especiarias e uma persistência interminável. Sem importador no Brasil.

- A Tenuta Chiccheri apresentou um Amarone 2007 impressionante, não é a toa que figurou entre os TOP 5 do evento; também procura um importador.

- A Ravin (www.ravin.com.br) trouxe o produtor Antichello na figura de Luciano Begnoni, filho do patriarca Giancarlo. Simpaticíssimo, este italiano apresentou seus vinhos, dentre os quais o Valpolicella mais simples, fermentado em tanques de aço inox, sem passagem por madeira, que se diferencia da maioria dos vinhos desta categoria, com notas de cereja fresca, fácil de beber e custo benefício muito bom (excelente opção para o dia-a-dia). O corte inclui 70% de Corvina, 20% de Rondinella e 10 % de Corvinone.
O Amarone Antichello 2008 foi eleito em primeiro lugar no TOP 5 do evento, segundo júri composto por profissionais, jornalistas e sommeliers. Concordo com o resultado; este vinho está excelente, pronto para beber, redondo... aromas de fruta vermelhas, alcaçuz, tudo que um bom Amarone apresenta... porém, na minha opinião, o melhor vinho do evento foi o Santa Sofia, trazido por Luciano (65% Corvina, 30% Rondinella e 5% Molinara). Este Amarone não entrou na degustação às cegas do júri, pois ainda não é trazido pela importadora. Apresenta uma complexidade incrível, com aromas de cereja passada, chocolate, especiarias, couro, taninos mais elegantes que os Amarones em geral, retrolfato com frutas secas e longo, longo final de boca. Aguardamos com ansiedade sua importação.

Conversando com os produtores, pude constatar que uma boa parte tem substituído a variedade Molinara por outras, como Corvinone, Croatina, Oseleta e Dindarella no corte ou blend dos Amarones, alegando melhores resultados com estas outras uvas e realmente, produzindo exemplares notáveis de Amarones. Contudo, algumas vinhas velhas de clones antigos de Molinara ainda produzem frutos de alta qualidade, com excelentes resultados.
Concluindo, variedades à parte, os resultados dependem muito do produtor.







9 de maio de 2013

Pimenta na boca dos outros (com Riesling) é refresco...

Sempre tive vontade de botar em prática alguns conhecimentos teóricos em relação à comida Asiática, com seus atraentes (e perigosos?) temperos.

Essa oportunidade apareceu na minha visita ao Restaurante Tian, em São Paulo, que tem como proprietários a chef Marina Pirapatan e o restaurateur Cyro Sá, ex-sócios do Mestiço. A cozinha do restaurante tem influências culinárias da China, Tailândia, Vietnã, Coréia, Filipinas e Japão (o casal morou fora do Brasil por 10 anos)

Bem, na teoria, eu sabia que pratos pouco apimentados e ricos em especiarias doces poderiam se casar com vinhos mais aromáticos, bem como pratos mais condimentados têm afinidade com vinhos de maior acidez e toque de doçura. Uma ressalva importante deveria ser feita à graduação alcoólica e aos taninos: pratos mais "quentes" não se dão bem com eles (aumentam a sensação de ardor), portanto eu tinha que evitar vinhos tânicos e com elevado grau de álcool se optasse por "apimentar a relação".

Munido de dois vinhos emblemáticos para enfrentar essa culinária muito rica em especiarias e pimentas com diversas intensidades, lá fui eu disposto a encarar esta difícil armadilha do mundo do vinho...

Na maleta estavam:


Enquanto aguardávamos o serviço do vinho, as EXCELENTES Golden Baskets (cestinhas crocantes recheadas de frango, milho e camarão) sumiram rapidamente...

Quando a outra entrada chegou (anéis de lula crocantes empanados em tempurá de cerveja, acompanhados do ótimo molho de pimenta coreana Kimchi), o Oberhauser Leistenberg Riesling Kabinett 2007 (www.decanter.com.br) do produtor Donnhoff se fez presente em todo seu esplendor, com aromas cítricos (lima), mineralidade incrível (pedra molhada?) e uma acidez marcante, tudo regado a 8,5% de álcool. A lula crocante pedia um vinho com acidez elevada para "lavar a gordura" e o molho apimentado com raspas de limão implorava por um toque de frescor, doçura e... um aroma cítrico -a "cereja do bolo"! - casamento perfeito!

Os pratos seguintes vieram em tempos diferentes, pois a idéia é compartilhá-los; o Wok de porco e abacaxi com manjericão tinha mais doçura e especiarias (gengibre?), que já equilibravam o tempero discretamente picante. Aqui o Riesling não conseguiu acompanhar o peso e perdeu para o "doce" do prato. 
Nos dois Woks seguintes, o primeiro com shimeji, azeitona, castanha de caju e maçã verde e o segundo de lula, pato crocante, manjericão e cenoura, o Riesling saiu-se melhor, principalmente com o último.

Era hora de abrir o Gewurztraminer Wintzenhein 2005 do Zind Humbrecht, pensei... Vamos experimentar e ver a diferença, pois seria teoricamente impactante... E que mudança! 
Coloração amarelada com reflexos dourados. Aromas de rosas, lichia, acidez beeem mais baixa e 14,5% de álcool!! Devo admitir que depois de tamanha elegância e acidez do Riesling, o segundo vinho causou certo desapontamento...
Este desapontamento transformou-se numa boa harmonização quando o primeiro Wok que não havia combinado com o Riesling voltou à tona, agora com uma "escolta" à altura de seu peso.

Terminei a refeição com um trio de creme brulèe (apresentado em 3 versões: capim limão, gengibre e chá tailandês), infelizmente sem um vinho de sobremesa...

Com a certeza de voltar e tentar outros pratos e harmonizações, inclusive com o famoso Curry de Pato, o restaurante me deixou uma ótima impressão, além de ter preços muito razoáveis para o padrão paulistano (com exceção à taxa de rolha de 40 reais).

Ah! A safra 2007 do Oberhauser Leistenberg Riesling Kabinett está esgotada, agora só a 2010 está disponível. Para os que gostam de pontuações, as safras receberam a mesma nota do Parker (91 pontos), mas na minha humilde opinião, vou comprar e eu mesmo comparar...

6 de maio de 2013

Reflexões de um fim de semana...

Fazendo um intervalo entre um evento e outro, e sendo um pouco menos técnico, gostaria de relatar minha experiência sensorial com vinhos do fim de semana, pois este é o espírito do blog, a exploração dos sentidos ligados ao vinho.
Estes sentidos envolvem as não tão óbvias visão, olfato e tato, extrapolam para os menos óbvios ainda paladar, gosto, e culminam com sensações de felicidade e momentos de comunhão com familiares e amigos, fazendo mais que justiça a uma bebida cuidadosamente elaborada para este fim... extrapolando uma descrição técnica.

Sexta feira à noite, queijos sobrando na geladeira... Reblochon, Tallegio, Brie e Queijo de Cabra. Tenho um vinho na mesma geloca colocado no dia anterior: um branco chileno Laberinto Sauvignon Blanc! (www.magnumimportadora.com.br)

Bom, sou suspeito para falar deste vinho... conheci-o numa viagem à Guarapari em 2010; a safra era 2007, porém o vinho apresentava uma acidez e mineralidade incríveis, extremamente gastronômico e versátil à mesa (naquela circunstância "praiana" não poderia ser melhor, a combinação com a moqueca capixaba foi divina...). 
Conheci no ano seguinte Rafael Tirado, o enólogo responsável. Explicou-me sobre o belo e intrigante rótulo (que faz uma alusão aos vinhedos plantados em curvas e diferentes direções), seus métodos de vinificação aprendidos no Loire, suas idéias e conceitos... apresentou-me a nova safra (2011), que ostentava uma acidez nervosa, mas que, segundo seu criador, iria superar a 2007... acho as duas ótimas!
A combinação com queijos não é uma tarefa das mais fáceis para os vinhos... queijos mais ácidos (por ex., cabra) pedem vinhos mais ácidos; queijos mais delicados (como o brie) pedem vinhos mais macios, menos "pungentes". Até aqui entram os brancos secos. Quando começamos a pensar em queijos de sabor mais intenso, podemos tentar a harmonização com tintos mais leves, de taninos macios, do tipo Pinot Noir.
A combinação de queijos azuis com vinhos doces resulta em parcerias indescritíveis (pode tentar!) como o Roquefort e o maravilhoso Sauternes. Numa futura postagem falarei mais sobre queijos e vinhos.
Neste meu caso de sexta- feira, quem se deu bem? Aquele mais perto do vinho... o queijo de cabra! Não tem jeito! A combinação é clássica e não é de hoje... Este chileno de alma francesa, com sua acidez, fruta (senti tangerina no aroma) e mineralidade faz um par perfeito com o fromage de chèvre, como é conhecido na porção leste do Vale do Loire, reino da Sauvignon Blanc.

Sábado...
Risoto de camarão com champignon e raspas de limão siciliano (por minha conta, as raspas... eheh)
Os dois dedos do Laberinto do dia anterior não fizeram feio... mas eu queria experimentar outro vinho e optei por tentar algo diferente...


Este vinho é um Soave, produzido por um dos mais conhecidos e respeitados produtores da região, Pieropan (www.decanter.com.br). Calvarino é o nome deste vinho, feito com um corte de 70% de Garganega (é o nome desta uva) e 30 % de Trebbiano di Soave. Com a mesma graduação alcoólica do Laberinto (12,5%), e uma acidez menor, porém bem equilibrada, este vinho apresentava uma complexidade interessante, com aromas de frutas (abacaxi, melão maduro), floral (camomila), uma nota mineral e um retrolfato remetendo a mel (??). Intrigante não ter sentido as notas cítricas de limão características deste vinho. Evolução?
O fato é que combinou bem com a textura e aromas do risoto...

Domingão do Moscatão

Domingo à noite, divertindo-se com amigos e finalizando a jantar com uma maravilhosa torta de maçã com doçura não pronunciada, na medida certa.

Emerge uma combinação clássica com panetone, o Moscato d'Asti. Este Bosc dla Rei do produtor Beni di Batasiolo certamente não tem a energia do primeiro ano de vida, mas foi uma excelente opção para se despedir do final do fim de semana, com trabalho no dia seguinte. Os aromas remetem a maçã (oba!ajuda a combinar!), laranja e rosas. Me arrisco a dizer que a doçura mais evidente com a queda da acidez "ajudou" a harmonizar com a sobremesa...
Com 5,5% de álcool, estes são vinhos superdivertidos, com sua efervescência discreta (aqui quase ausente) e já li mais de um crítico referindo-se a ele como o vinho do café-da-manhã... eheh


2 de maio de 2013

Gambero Rosso Road Show 2013



Não é necessário ter conhecimento da língua italiana para traduzir literalmente "Gambero Rosso" em "Camarão Vermelho". Além disso, o desenho é auto-explicativo...
A título de curiosidade, o nome deriva de uma passagem do famoso livro Aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi:  a Osteria del Gambero Rosso é o local onde a Raposa coxa e o Gato cego jantam com o boneco falante, deixando a conta para Pinóquio.
O que viria a se tornar um ano após sua publicação no mais famoso e renomado guia de vinhos italianos, o Gambero Rosso Vini d'Italia iniciou as atividades como um suplemento de 8 páginas do jornal italiano Il Manifesto em 1986, tendo como autor Stefano Bonilli. Além disso, o suplemento ajudou a difundir a visão do "Arcigola", movimento precursor do Slow Food, que se tornou "parceiro" do guia. O Gambero Rosso tornou-se um grupo editorial poderoso, editando nos anos seguintes uma revista homônima, além de vários outros guias ligados à gastronomia. Em 1999 inaugurou um canal de televisão em parceria com a RAI, e em 2002 inaugurou a primeira de 4 Città de Gusto, um complexo de 10.000 metros quadrados em Roma, que abriga escola de gastronomia, estúdios de TV e wine-bar (as outras unidades localizam-se em Nápoles, Catania e Palermo). Em 2012 foram publicadas as versões digitais do guia de vinhos e do guia de restaurantes (Vini d'Italia e Ristoranti d'Italia), disponível para Iphone, Samsung, Google, Amazon e Windows 8, atualizados em 2013.
O guia classifica somente vinhos italianos selecionados pelos editores como "acima da média", através de um sistema de taças ou bicchieri (1 taça - bom; 2 taças - muito bom; 3 taças - extraordinário); em 2002 foi introduzida uma nova classificação: 2 taças vermelhas, que indicariam vinhos "candidatos" a receber 3 taças, pois estariam num nível acima da maioria que recebeu 2 taças. Devemos salientar que são comparados vinhos de uma mesma região ou denominação de origem. Ou seja, não se compara um tinto da Sicília com outro do Piemonte.




Pois bem, pela segunda vez em São Paulo (6ªedição da turnê mundial) o Gambero Rosso veio com seu Road Show e mais de 50 "Top Wines" (Tre Bicchieri) e mais outros 200 vinhos, dentre os melhores da Itália. A organização ficou a cargo de Cristina Neves, conhecida pela competência na organização dos maiores eventos ligados ao vinho atualmente.

Meus destaques foram:

Espumantes

  • Nino Franco, Prosecco di Valdobbiadene Rustico (www.inovini.com.br): 100% glera, método Charmat; típico e muito bom, já conhecia esse espumante, superior aos proseccos habituais, mas o preço também.
  • Nino Franco, Prosecco di Valdobbiadene Primo Franco (www.inovini.com.br): irmão mais "parrudo" do anterior, também com tipicidade (maçã verde, floral), porém mais complexo.
  • Franciacorta Saten Cuvée 61Brut (www.barrinhas.com.br): 100% chardonnay; método tradicional, com 24 meses de autólise; aromas de fruta (pêra) e um interessante retrolfato floral.
  • Ca'del Bosco, Franciacorta Brut Cuvée Prestige (www.mistral.com.br): Chardonnay 75%, Pinot Bianco 10% e Pinot Nero 15%, método tradicional com 28 meses de autólise; este Franciacorta é um dos melhores representantes da categoria, aromas cítricos, notas florais e de pão (leveduras), é uma excelente introdução aos vinhos deste produtor.

Brancos

  • Vigne Surrau, Vermentino di Gallura Sciala 2011(sem importador): 100% Vermentino; para os que ainda duvidavam do potencial desta variedade, este belo exemplar diferencia-se dos Vermentinos em geral; bom corpo, harmônico, acidez excepcional, aromas complexos, herbáceo, mineral, provavelmente agraciado pelo tempo de maceração a frio antes da fermentação em tanques de aço inoxidável onde realiza amadurecimento por vários meses em contato com as borras.
  • Villa Medoro, Trebbiano d'Abruzzo Chimera 2011(www.tahaavinhos.com.br): 100% Trebbiano, este vinho apresenta bastante frescor, com aromas de frutas tropicais e flores brancas. Outro vinho do mesmo produtor que me chamou a atenção foi o Pecorino 2012 (100% Pecorino); um vinho com boa acidez e mineralidade marcante (porém ainda não está disponível na importadora).
  • Volpe Pasini, Sauvignon Zuc di Volpe 2011 (www.worldwine.com.br): 100% Sauvignon Blanc; não é a toa que foi eleito o vinho branco do ano na Itália em 2012! Belo Sauvignon Blanc, equilibradíssimo, notas herbáceas em harmonia com a fruta...me lembrou vagamente um vinho do Loire...Obs: O Pinot Grigio Ipso de Volpe Pasini também estava excelente, porém acho que este 2007 já está um pouco "cansado", falta um pouco de acidez.
  • Valle Reale, Trebbiano d'Abruzzo Vigna di Capestrano 2010: 100%Trebbiano. diferente de todos os outros brancos, este vinho não é filtrado; o que significa que visualmente apresenta um pequeno grau de opacidade. No nariz, aromas tão exóticos e intensos que lembram queijo, segundo meu amigo e competentíssimo sommelier Aldo Assada. A importadora Zahil (www.zahil.com.br) é responsável pela importação dos outros excelentes vinhos da Valle Reale, porém este branco não é trazido, pela dificuldade de penetração comercial de um vinho branco não filtrado (mesmo na Itália, segundo o gerente de exportação Marco Germani)

Tintos

  • Colle Massari, Grattamacco Bolgheri Rosso Superiore 2009 (www.mistral.com.br); 65% Cabernet Sauvignon, 20% Merlot, 15% Sangiovese: intenso, aromas de frutas negras, balsâmico, especiarias e uma nota de couro novo
  • Còlpetrone, Montefalco Sagrantino 2007 (www.cantu.com.br): 100% Sagrantino, este tinto da região de Umbria que tem passagem por 12 meses em carvalho francês é impactante, com aromas de frutas negras e vermelhas, notas de especiarias, com taninos e acidez "over"; necessita de tempo de envelhecimento (2-3 anos de adega, durando até 15!).
  • Volpe Pasini, Merlot Focus Zuc di Volpe 2006 (www.worldwine.com.br): 100% Merlot, 12 meses em barricas novas e 12 meses em garrafa, este vinho é, sobretudo, elegante, com notas de frutas maduras e animais, delicioso.
  • La Spinetta, Barbaresco Bordini 2008 (www.vinci.com.br): 100% Nebbiolo: para mim, o melhor de todos que degustei. Esse Barbaresco é ao mesmo tempo elegante e estruturado; aromas de frutas vermelhas maduras, violeta, alcaçuz, rosas, com notas de temperos e terra úmida no retrolfato. Taninos finíssimos presentes, associados uma acidez marcante, o que confere a este vinho potencial de guarda.
É importante ressaltar que alguns vinhos foram trazidos direto pelo produtor, a título de apresentá-los ao mercado brasileiro, bem como safras diferentes das atualmente nas importadoras.

Nos próximos posts, falarei sobre o encontro de vinhos OFF e a Expovinis. Até lá!