27 de junho de 2016

Clarets, uma importadora TOP


Conhece? Ouviu falar? Um dos seus sonhos de consumo pode estar aqui...

Fundada em 2012, a Clarets é uma importadora  que baseia sua operação em grandes volumes de compra junto aos produtores do seu portfólio fixo relativamente pequeno (porém excelente). Resultado: trabalhando com uma proposta agressiva de preços, o preço final do produto para o consumidor cai, e continua caindo de forma escalonada, de acordo com o volume de compra. 

Para poder entender o que seria uma "compra agressiva" junto aos produtores, basta saber que a importadora é a SEGUNDA MAIOR COMPRADORA do mundo do conceituado Champagne Pommery. Pois é, não são fracos, não...

Fui apresentado à importadora pela moça que tem o "toque de Midas" nas mãos: Cristina Neves. Impressionante como o seu nome tornou-se referência nos grandes acontecimentos relacionados ao mundo do vinho; basta dizer que o mítico Gambero Rosso, evento homônimo do mais conceituado guia de vinhos italianos passa diretamente pela sua organização.

Clarets, no TOPo, com o skyline de Cris Neves ao fundo

Localizada no topo de um edifício comercial na Rua Frei Caneca, a importadora ocupa toda a cobertura, com um espaço suficiente para o armazenamento de 25.000 garrafas!!! Perfeitamente climatizadas, dentro em breve receberão a companhia de mais 15.000 garrafas, em função da ampliação de espaço em curso.

degustadores... espaço perfeitamente organizado
Lugar suficiente para armazenar garrafas de diferentes estilos e preços, tais como as Champagnes Cristal e Bollinger, Borgonhas de Olivier Leflaive, Bordeaux, Brunellos da Casanova di Neri e vinhos de Portugal e Espanha.











Nessa visita, tivemos a oportunidade de degustar a linha dos vinhos alentejanos da Quinta São José de Peramanca.



Não confunda com o conhecido Vinho português Pêra Manca...A região onde se situa a Quinta possue alguns relatos históricos de produção de vinhos que remonta o Século II A.C.
O nome Peramanca significa "pedra oscilante, pouco segura", reflexo das pedras de granito em equilíbrio oscilante, existentes no local.
Com o passar dos séculos, o incentivo à produção de vinhos ao redor de Évora (Alentejo) foi estimulado, e verdadeiras "odes"ao vinho de Peramancas foram criadas. 
Em 1913 a Família Grave adquire a propriedade, porém somente em 2003 a família retoma as origens produtivas, decidindo plantar as primeiras vinhas. O primeiro Pêra Grave foi engarrafado em 2005.


O primeiro vinho, o Pêra Grave Branco 2014 apresentava uma coloração amarelo palha bem clara, com perfil cítrico e discreto floral. fresco e bastante agradável, com aptidão para acompanhar frutos do mar como um belo polvo. Álcool 12,5%; Valor: R$104,00
Na sequência, foram servidos os tintos:


Pêra Grave 2012, um corte de Cabernet Sauvignon com Aragonez, Syrah e Alicante Bouchet, que estagia 12 meses em barricas novas (carvalho francês e americano).Este vinho de "entrada" apresenta uma bela paleta aromática com fruta vermelha e negra (cassis), baunilha e pimenta negra na evolução dentro do copo. Com uma acidez equilibrada e um final surpreendente longo. Álcool 14%. Valor: R$133,00 muito bem pagos!

Pêra Grave Reserva 2012. Blend de Syrah, Touriga Nacional e Alicante Bouchet, com tempo de barrica de 18 meses (carvalho francês novo). O negócio agora ficou mais sério... Os aromas de fruta estão presentes, porém agora acompanhados de especiarias e notas tostadas elegantes, Na boca taninos muito finos, equilibrados com acidez, corpo e álcool. Belíssimo vinho! Álcool 14,5% Valor: R$248,00

Pêra Velha Grande Reserva 2011. O mais velho dos tintos, com nítida evolução, apresentando uma explosão de fruta já madura (cerejas, ameixas), notas balsâmicas, especiarias e notas terciárias (couro, suor). Boca muito equilibrada entre os elementos de tanino, acidez, corpo e álcool. Pode ser guardado, mas está pronto para beber, proporcionando muito prazer! Álcool 14,5% Valor: R$540,00



Neste link você pode visualizar o portfólio da importadora. 

25 de abril de 2016

Gaja


Encontrar com produtores de vinho é algo que particularmente me agrada. Nesses momentos conseguimos entender melhor o produto, e dependendo do viticultor, muito além do simples processo de criação.

Angelo Gaja sempre esteve num patamar diferente para mim. Conhecido no mundo do vinho pelo seu bom humor e carisma, o homem que revolucionou a vitivinicultura do Piemonte é de uma modéstia sem par.

Signore Gaja evoluiu à espelho de seus vinhos, que por diversas vezes estão prontos para serem bebidos, mas que reservam momentos de sublime prazer àqueles que possuem o dom da paciência. 

Pois bem, com um misto de ansiedade e expectativa positiva, tive o privilégio de conhecê-lo recentemente, no auge de seus 76 anos.
Homem simples, intimamente ligado à terra e aos valores familiares, diversas vezes em sua explanação fez questão de mencionar a esposa, as duas filhas (Gaia e Rosana) e o filho mais novo, de 23 anos, que em breve se juntará ao lavoro na vinícola. 
Rouco, o que não o impediu de falar, Angelo ressaltou que esteve em outras oportunidades no Brasil, mas que só conhecia São Paulo e Rio de Janeiro. Desta feita, iniciou sua peregrinação no sul do país, onde conheceu os vinhedos de São Joaquim. Exaltou a vocação brasileira para fazer espumantes e apontou os principais perigos à viticultura local, como as geadas e o ataque de pássaros aos vinhedos. Apontou que o Brasil pode tornar-se líder na produção de espumantes de qualidade no Hemisfério Sul, basta que os esforços sejam direcionados.

Exímio contador de histórias, Angelo Gaja brindou-nos com várias, enquanto discorria sobre suas práticas atuais nos vinhedos, entre elas, a utilização de humos de minhoca vermelha(50 toneladas produzidas por ano!), flores entre as linhas de cultivo e até abelhas, por insistência das filhas. Explicou que as mesmas não prosperam em ambientes insalubres. Só queixou-se, entre risos, de não poder rotular o mel produzido com o nome Gaja...

Introduziu-nos a palavra resilienza, princípio utilizado nos vinhedos. A tradução refere-se à capacidade de adaptação à mudanças e capacidade de se recobrar, de voltar a forma original. Com as novas práticas utilizadas, levantou a questão de que "não sabia se todo o trabalho empregado torna o vinho melhor". Mas acredita que tais práticas aumentam a resilienza do vinhedo.

Citou ainda o que chama de vinhos com muita intervenção ou "manipulados": bons ou ruins, servem somente ao paladar. 
Por outro lado, Gaja fez reverência a uma categoria que extrapola este sentido, atingindo a testa (cabeça, mente), e que cada vez mais tem sensibilizado o consumidor, seja pelo cuidado de práticas "naturais", seja pela qualidade final. E isto, segundo ele, é benéfico para chamar a atenção dos "grandes" produtores dos chamados vinhos de paladar.

Entre outras qualidades do vinho, Gaja chamou a atenção à grandeza da bebida como grande "embaixadora" do Genus Loci, ou "espírito do local". O vinho ajuda a entender a grandeza do clima e do local onde é cultivado. Tomou como exemplo a região de Bolgheri, onde " a vida e o vinho amam o respiro do mar".
Grande defensor do aforisma "menos é mais", a começar dos seus rótulos, extremamente simples, Gaja também ressalta o vinho como produto que consegue transmitir através de uma garrafa informações importantes para o consumidor. Informações essas que não têm paralelo quando tratamos de produtos como queijos, salames ou leite.


Bom...você deve estar perguntando...E os vinhos???

Bem, primeiramente  temos que dizer que os vinhos de Angelo Gaja vendidos no Brasil estão em um patamar de preço que torna-os praticamente impossíveis de serem degustados, pelo menos para a grande maioria dos amantes da bebida  de Baco...

O excelente Promis 2013, um IGT Toscano de raça, corte de Merlot (55%), Syrah (35%) e Sangiovese (10%) é vendido por U$ 87,50 (R$360,00). O Promis 2009, mais evoluído e de mesmo valor, apresenta aromas mais complexos, ainda com uma acidez incrível.
Surpreendente o branco Vistamare 2014, corte de Vermentino e Viognier. Esbanja fruta e mineralidade, com bom corpo. Deve ficar ótimo com um peixe ao molho cremoso. U$114,00
O Camarcanda Bolgheri 2009 me surpreendeu pela elegância, com aromas minerais e de carne crua, com estrutura suave de taninos e grande equilíbrio. 

Show à parte, o Brunello di Montalcino Sugarille 2010 apresenta aromas de frutas negras e vermelhas, tabaco e notas balsâmicas A complexidade se repete na boca, com um equilíbrio fenomenal entre acidez, taninos e corpo. U$369,00. Por 200 dólares a menos o Brunello de entrada (2010) satisfaz bolsos mais "econômicos".

Finalizando, era hora de degustar os famosos Barolo e Barbaresco

Começando pelo moderno Sito Moresco 2013 (corte de Nebbiolo, Merlot e Cabernet Sauvignon), com aromas elegantes de couro novo, flores(violeta) e baunilha. Na boca, equilibrado, com excepcional acidez e pronto para beber, com muito prazer. Bastante gastronômico. U$109,90

O Barolo Dagromis 2011 é simplesmente sensacional. Menos aromático inicialmente, depois evolue no nariz com flores secas, couro, balsâmico, toffee,... Excepcional na boca. Sem palavras, U$179,90

O último e aclamado Barbaresco é o vinho emblemático da vinícola. Neste, da safra 2012 os aromas terrosos, de sous bois, cerejas, floral ainda parecem pouco expressivos, devendo literalmente explodir com o tempo de guarda. Acidez perfeitamente equilibrada e alta, com taninos igualmente altos porém firmes. Final muito longo. Vida longa!...para os determinados: U$489,50

Os vinhos de Angelo Gaja são importados pela Mistral


21 de fevereiro de 2016

Pausa para um Champagne...


Parâmetro, referência, exemplo... Todas essas palavras podem ser utilizadas quando nos referimos à Champagne. 
Espumantes de diversas partes do mundo são comparados ao místico sabor das borbulhas provenientes de vinhedos localizados somente a 50 km leste de Paris, compreendendo o Vallée de la Marne, a Montagne de Reims e a Côte de Blancs.

Champagne pode ser considerada uma das mais complexas zonas de produção vitivinícola do mundo: 299 "Casas" ou Maisons, 67 cooperativas e mais de 15.000 produtores (pouco mais de 3.000 vendem o que produzem). Essa relação entre as grandes casas e pequenos produtores rende bons negócios para ambos, pois resumidamente, 90% das terras cultiváveis pertencem aos pequenos produtores, que vendem parte ou totalidade da produção. Ao mesmo tempo, 80 % da bebida é produzida pelas grandes casas de Champagne através da compra da produção dos pequenos produtores. Com o quilo da uva classificada como grand cru batendo os 6-7 euros, digamos que é um bom negócio, sendo que a quantidade de uva em uma garrafa de 750 ml chega a 1,2 quilos.

Portanto, quando um pequeno produtor cruza o nosso caminho, mesmo que venda uma parte de sua produção para uma grande casa de Champagne, devemos prestar atenção em seu produto próprio; ele é fruto dessa maravilhosa simbiose entre o homem e a terra, sem ninguém "atravessando" o caminho. É algo do tipo: "-Ei, veja o vinho que fiz aqui com minha plantação e meu cuidado!".

Baslet Penet comprou as primeiras parcelas de vinhedos durante a época da Revolução Francesa, e inicialmente vendia sua produção aos negociantes. O desejo de elaborar o próprio Champagne veio após a crise de 1929, quando o sucessor Louis Gilbert Penet torna-se o chamado Récoltant - Manipulant (produtor que elabora e vende o próprio Champagne). Nesta época escavam adegas subterrâneas a 18 metros de profundidade, para o amadurecimento dos vinhos. 

Seu filho, Jean Marie Penet cria, na sequência, a marca de Champagne "Jean Marie Penet", que finalmente torna-se "Lepreux-Penet" após a união de sua filha com Jean-Paul Lepreux.
Atualmente Jean Paul Lepreux toca a vinícola em conjunto com o genro François Barbosa (filho de portugueses, com parte da família em São Paulo).

Recentemente tive a oportunidade de degustar um vinho produzido pelo Monsieur Lepreux...

O Champagne Lepreux-Penet Bulles Précieuses Grand Cru é um blend de Pinot Noir (66%) e Chardonnay (34%), de vinhedos da mais alta gama, classificados como Grand Cru, de Verzy e Verzenay. Colhidos à mão, os cachos inteiros são submetidos à prensa e a fermentação ocorre em tanques de aço inox com temperatura controlada. O processo clássico de elaboração e amadurecimento de Champagne ocorre nas adegas subterrâneas, escavadas em pedra calcária, onde a temperatura não ultrapassa os 9°C. Com 6-8 g/L de açúcar, é classificada como Brut (sim, abaixo de 12 é brut- mas isso discutiremos em outra oportunidade).

Nota de degustação:

video

Visual: coloração amarelo palha, com bolhas pequenas e numerosas

Olfativo: fragrante aroma floral, com uma notinha cítrica (lima) e um brioche elegante, tipo croissant

Gustativo: textura cremosa, com uma acidez cortante, característica dos (bons) Champagnes. Após um tempo de copo e elevação da temperatura, alguns sabores que remetem a fruta seca e mel. Penso que uma parte do vinho (ou mosto) teve contato com barricas de carvalho... a conferir. A persistência na boca acompanha o corpo, média alta.


Gostou? Ficou curioso?

A Lepreux -Penet elabora outros estilos, desde brut e extra brut, passando por rosé, millésime e demi -sec. Porém não existe uma grande importadora que trabalhe com esse produto no país, cujo preço facilmente ultrapassaria 300 reais... (em média 16-18 euros na Europa, junto ao produtor).

Importadoras interessadas, favor contatar a representante da Lepreux-Penet no Brasil, Karina Nocais. Contato: pelo telefone (011) 982354007 ou e-mail: karina@ligareconsult.com.br.

Ah; se você procurar em guias de avaliação mais manjados provavelmente não vai encontrar...


18 de janeiro de 2016

Diary of a madman for wine in Mendoza - Day 1

Vales vitivinícolas da Argentina (fonte: Wines of Argentina)
Só para localizar o leitor, vou discorrer rapidamente sobre as regiões vinícolas da Argentina: Basicamente são três grandes regiões: Norte (onde está Salta, famosa por seus vinhedos a 3.000 metros de altitude), Cuyo (onde se localiza Mendoza, responsável por 80% da produção do vinho argentino) e a fria e isolada Patagônia no extremo Sul (onde ficam Neuquén e Rio Negro).

O objetivo de nossa viagem foi especificamente a região de Mendoza, que recebe o nome a partir da cidade homônima.

Região de Mendoza: plana e semiárida
Agora...imagine um local deserto, com seus míseros 200 mm de pluviosidade ANUAL, onde nada (ou quase nada) cresceria... Pois é, essa colcha de retalhos plana e semiárida fica fácil de entender principalmente quando você faz o trajeto de avião entre Buenos Aires e Mendoza. A cidade e a vitivinicultura floresceram graças aos rios formados pela água de degelo dos Andes. Na cidade você pode observar vários canais com água, a céu aberto, responsáveis pelo verde das ruas.
Cidade de Mendoza: plana, planejada e arborizada, graças aos "canais"

Para entender a localização dos vinhedos de Mendoza, vamos pensar numa grande "parede" que são os Andes, servindo como "pano de fundo" desse deserto. Nos locais onde passam os rios Mendoza e Tunuyan, a atividade vitivinícola prospera. Destes, os mais importantes são Luján de Cuyo, Maipu e Valle do Uco.



O primeiro dia do programa oficial iniciou-se com um Seminário no belo centro de visitantes da BODEGA DOÑA PAULA sobre "Malbec de diferentes terroirs", ou seja, como a casta se comporta em diferentes solos, altitudes, climas... A bodega localiza-se em Ugarteche, uma subregião, entre os rios.
Doña Paula


O engenheiro agrônomo Martin Kaiser fez uma explanação técnica bastante aprofundada sobre o assunto, ao mesmo tempo em que degustávamos amostras dos vinhos produzidos em cada local, para fins de estudo e não comercial.

Experimentos Doña Paula: Malbecs de diferentes alturas, latitudes e solos

Impressionante como a Malbec, sem perder seu perfil frutado, tem expressões diferentes de aromas e sabores, de acordo com o solo e o clima (por ex., minerais; especiarias, floral); Martin explicou que o estudo do solo é feito através de aparelhos especiais que fazem a varredura de superfície em toda área, e baseado nestas informações, elaboram um verdadeiro mapa de microterroirs. 




A Bodega, desde a sua criação em 1990, se preocupa com essa investigação de terroirs. Ganharam minha admiração e respeito.

Para finalizar, Martin apresentou o Doña Paula 1350, safra 2013, corte de Cabernet Franc (50%), Malbec (45%) e uma surpreendente Casavecchia (5%), uva que faz parte de alguns testes recentes. Potente e equilibrado em acidez, taninos e álcool, com belo futuro pela frente. Quem traz a Doña Paula para o Brasil é a importadora Inovini 


Septima: arquitetura integrada à paisagem

Na sequência, visitamos a BODEGA SEPTIMA, onde a arquitetura é um show à parte

Pertencente ao grupo Codorniu, a Septima localiza-se na região de Agrelo. Eu conhecia (e gostava) dos vinhos da bodega, e já tive a oportunidade de escrever sobre ela aqui no blog (set/2014). 

Visual da sala de almuerzo
Degustamos 4 vinhos e meu destaque foi para o Septima Malbec 2014; a utilização de barricas de terceiro uso por 6 meses continua trazendo elegância ao conjunto de bom custo beneficio.

Outro destaque fica para o almoço com um visual arrebatador; sem dúvida um belo programa para quem for a Mendoza. a linha da Septima é trazida pela Todovino / Interfood









Seguindo viagem pela região, visitamos a FINCA DECERO. O nome é providencial, pois a bodega foi criada "Do Zero" (Decero) literalmente, em uma terra outrora árida e desolada aos pés dos Andes, onde cresciam somente plantas rasteiras em meio a minúsculos vórtices de vento chamados remolinos (nossos redemoinhos). 

Finca Decero

Trabalhados "amano", os chamados vinhedos Remolinos produzem vinhos de castas que se adaptaram harmoniosamente à região.
Destaque na degustação para o premiado Decero Mini Ediciones Petit Verdot Remolinos Vineyard 2012, com taninos imponentes porém sedosos, aliados à boa acidez. Elegante conjunto, com potencial de evolução. Aliás, junto com a Cabernet Franc, a Petit Verdot é uma casta que tem tudo para crescer mais na Argentina, na minha opinião. Vamos observar. Não tem importador no Brasil.




Na continuação do programa, a BODEGA CASARENA, onde fomos recepcionados pelo simpaticíssimo enólogo Bernardo Bossi Bonilla, com direito a degustação seguida de tour pela vinícola.

Entrada da Casarena
Impressionou-me toda a linha, que em parte eu conhecia. No Restaurante MoDi, São Paulo, temos o 505 Vineyard Malbec 2013, premiado pela Revista Decanter, de excepcional custo benefício. A novidade é que agora o Malbec pode vir em formato Bag-in-box. 

Malbec bag- in- box

Linha 505: custo benefício

Os vinhos do segmento Jamilla's single vineyard 2012 (100% Malbec) e Lauren's single vineyard 2012, demonstraram muito bem as diferentes expressões da Malbec. Em solo pouco profundo, com predomínio de calcário, o Jamilla's mostra-se bastante elegante e mineral, voltado ao paladar europeu. Em solo argiloso, o Lauren's evidencia mais potência, com aromas de frutas negras e especiarias (paladar americano). Na linha Lauren's temos ainda um Cabernet Franc redondinho e um equilibradíssimo Petit Verdot. Completando a degustação, a linha Ramanegra, um degrau acima da 505 e os TOPs DNA Cabernet Sauvignon, DNA Malbec e Icono, todos 2011. Os vinhos da Casarena são trazidos pela importadora Magnum.



Como disse anteriormente, a degustação foi seguida de um rápido tour pela vinícola até a sala de fermentação, onde barricas de carvalho serviam de mesa para a pequena feira com 5 produtores diferentes, cada um com 3 vinhos a serem degustados. Um deles, a Lagarde, eu já havia degustado no dia anterior.


Destaques:
  • Kaiken: Kaiken Ultra Cabernet Sauvignon 2012- fruta doce e taninos potentes em equilíbrio
  • Chakana: Ayni Malbec 2013 - muita fruta e mineralidade; elegante
  • Staphyle: Bonarda 2011 - fruta negra (ameixa), sem herbáceo, Interessante
  • Escorihuela Gascón:Vognier 2015 - cítrico (lima) e floral; 10% passa em madeira. Muito bom

mesa de jantar da Casarena

Para finalizar, jantar (estaria mais para cena, como dizem por lá) no maravilhoso restaurante da Casarena, junto com todos os produtores e com direito a aula de ampeleologia (estudo das folhas das parreiras) em campo com Bernardo e Juan Roby (Lagarde)


Bernardo Bossi, este blogueiro e Deco Rossi, RP da Wofa

Folha de Malbec




































Ufa!!!E tinha sido só o primeiro dia... 







31 de dezembro de 2015

Diary of a madman for wine in Mendoza - day 0












Reúna tradição à inovação. O "velho" ao "novo". Latinos e Europeus. Essa mescla de aparentes contradições define o povo do país de  Fangio, do Papa Francisco, de Lionel Messi. Agora tempere tudo isso com uma das paisagens vitivinícolas mais deslumbrantes do mundo... Pronto, aqui está a essência do vinho argentino!

Em recente viagem organizada pela Wines of Argentina e seu representante no Brasil, André "Deco" Rossi, pude experimentar toda essa "vibrante serenidade", transmitida através de visitas a 11 vinícolas, contato com 26 produtores e degustando quase 200 vinhos em 5 dias. 

Sem contar 2 seminários de altíssimo nivel, um sobre Malbecs de diferentes terroirs e outro sobre marketing vitivinícola. Literalmente, uma pauleira.

Um dia antes de iniciar o programa oficial de visitas, tive a grata oportunidade de visitar a famosa Bodega Lagarde, fundada em 1897 e adquirida em 1969 pela família Pescarmona, hoje representada pelas irmãs Sofia e Lucila.
A identidade da Lagarde reside no fato de ser uma bodega familiar produtora de vinhos de alta gama, tendo como um dos principais pilares a inovação. O bonachão Juan Roby é o enólogo responsável por trazer a magia da Lagarde ao copo.
Juan revelou que a tendência atual da vinícola é o emprego de recipientes de maior volume, com intuito de reduzir o impacto do carvalho no vinho. Segundo ele, esse procedimento origina vinhos com maior pureza, sem perder a elegância que o estágio em madeira confere.

Degustei dez vinhos, bastante representativos das linhas da vinícola, que descrevo abaixo. Só não degustei a linha Altas Cumbres, que tem um espumante, 3 brancos e dois tintos, todos varietais, todos elaborados para serem bebidos jovens. Os vinhos são comercializados no Brasil pela Devinum.


vinhos degustados

Linha Lagarde: são 7 varietais (3 brancos e 4 tintos) e um Rosé (Malbec e Pinot Noir). Todos os vinhos tintos estagiam 8 -10 meses em madeira (50% do lote, entre carvalho francês e americano)

  • Chardonnay 2014: Elaborado através de fermentação tradicional em inox, com temperatura controlada. Álcool 13,2%. Minha primeira impressão foi de mineralidade, muito além da fruta tropical. Juan não deixou compará-lo à um Chablis básico, sendo que a identidade do vinho era única. Está correto. Por aqui vale os 70-80 reais, com certeza!!

  • Blanc de Noir (Rosé) 2015: o corte de Pinot noir com Malbec funciona bem. A cor é bem clarinha, com expressão de fruta vermelha no nariz. Álcool 13,2%. Achei aqui a acidez um pouco mais baixa.

  • Malbec 2014: e começaram os Malbecs... fruta vermelha e negra no nariz, bela acidez na boca. Um pouco mais quente no fim, com seus 14% de álcool.

Linha Guarda: linha superior, elaborada em pequenas quantidades. Compreende 4 varietais (Malbec, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Chardonnay) e um Blend tinto.


  • Guarda Chardonnay 2014: Proveniente de vinhedos de 1350 m de altitude, sendo 40% fermentado em barricas francesas. Não realiza fermentação maloláctica. 14,4% de álcool que não se sente... Que vinho!!! Perfeita integração da fruta com a passagem por madeira. Ainda não temos nas terras tupiniquins...infelizmente.

  • Guarda Malbec DOC 2012: vinhedos de 1906? Isso mesmo! Atrás do restaurante você pode visitar o vinhedo e ver as parreirinhas de Malbec velhinhas... A fermentação clássica é feita em inox e o envelhecimento em barricas usadas por 12 meses. Aqui o álcool aparece (14,2%), porém a concentração de fruta deixa o conjunto bastante agradável.















Linha Primeras Viñas: vinhos únicos, com bom potencial de guarda. Produzidas 4.000 a 15.000 garrafas/ ano, dependendo do potencial da safra. Representada por dois vinhos varietais (Cabernet Sauvignon e Malbec)

  • Primeras Viñas Malbec 2012: também proveniente dos vinhedos de 1906 e outros de 1930. Porém, um manejo único origina vinhos extremamente concentrados e complexos: leveduras indígenas, maceração pré fermentativa por 3 dias (contato com as cascas antes da fermentação), remontagens diárias (ficar "mexendo" no conteúdo do tanque, para homogeneizar), além de amadurecimento por 12-14 meses em barricas francesas novas... aromas de chocolate, cacau, mentolado; sedoso e elegante na boca...WOW!!! Para padrões brasileiros atuais, é caro... algo em torno de R$ 250,00. Super indicado para uma comemoração especial.

Linha Henry: são os vinhos TOP da vinícola, blend que varia ano a ano, de acordo com a performance dos vinhedos e varietais, desde a primeira elaboração em 1990. Tivemos o prazer de degustar a safra disponível no mercado (2010) e as safras que ainda repousam em garrafa (2011 e 2012)



Henry 2010, 2011 e 2012





















  • Henry Gran Guarda Nº1 2010: se tivesse que escolher uma palavra para descrever esse vinho seria" impressionante". 33% de Cabernet sauvignon, 21,5% de Malbec, 24% de Petit Verdot e 21,5% de Cabernet Franc; Vinhedos de 1906, 1993 e 1998; 20 dias de maceração; 24 meses de envelhecimento em barrica e um ano em garrafa antes de ser lançado ao mercado...O valor é alto (na Argentina também), em torno de R$380,00. Mas como digo em alguns casos especiais, este vinho vale cada peso, dólar ou real investido... Potencial de guarda? Mais de 15 anos!!

  • Henry Gran Guarda Nº1 2011: corte de Malbec 70% e Cabernet Sauvignon 30%, a ser lançado no início de 2016; mineral, frutado e floral, com perfil distinto do 2010. Achei o blend de 2010 superior.
  • Henry Gran Guarda Nº1 2012: Neste blend foram empregados 48% de Malbec, 26% de Petit Verdot, 16% de Cabernet Sauvignon e 10% de Cabernet Franc. Impressionante como o emprego de Petit verdot traz complexidade e estrutura ao vinho; vida longa e próspera, deve evoluir tão bem ou melhor que seu irmão dois anos mais velho...

Depois dessa bela degustação, só nos restava saborear os pratos do restaurante da vinícola, impressionantes nos sabores harmonizados aos vinhos... Programa imperdível para quem visitar a Lagarde!!






15 de novembro de 2015

Filipa Pato


Resultado de imagem para filipa pato

Você a conhece? Ouviu falar dos vinhos do pai dela, referência em Portugal, mais precisamente na região da Bairrada?

Ora pois, Filipa é filha de Luis Pato, famoso enólogo (digo, engenheiro, como gosta de ser chamado), "embaixador" da casta Baga, uva tinta que ganhou nova roupagem na família Pato. 
Esta variedade, quando colhida antes de atingir o ponto ideal de maturação, pode gerar vinhos extremamente tânicos, característica acentuada quando ocorre a fermentação (frequente) em conjunto com o engaço.

Após se formar engenheira química pela Universidade de Coimbra, Filipa Pato estagiou em Bordeaux, Argentina e Austrália. Retornou a Portugal em 2001, quando iniciou um projeto pessoal na região, com estudo de locais de cultivo para as variedades locais.

Engana-se quem acredita que o começo foi fácil para Filipa; o pai lhe deu o sobrenome (que certamente ajudou), mas nenhuma vinha ou terra. Teve que começar do zero, desde a investigação do local e a compra de uvas. Mas assegura que foi a forma de encontrar os melhores vinhedos.
Em 2005 produziu seus primeiros vinhos, e no mesmo ano, em conjunto com o pai, elaborou o FLP, baseado em técnica de crioextração. Sempre na vanguarda, a mente aberta de Filipa permite que tradição e inovação se complementem.

Pois bem, tive a oportunidade de conhecer Filipa Pato e seu igualmente simpático marido Willian Wouters (chef e sommelier belga) em um jantar harmonizado no Restaurante Taberna 474, organizado pela incansável Cristina Neves. Por sinal, o Taberna 474 é uma excelente dica para um almoço ou jantar descolados, pela excelente qualidade e bom preço.

Durante nossa conversa, pude revelar que estava na vinícola de seu pai em 2011, e o mesmo não pôde me receber pessoalmente, pois havia saído para acompanhar o nascimento do neto, filho de Filipa. Dentre histórias e risadas, comparamos nossos nomes com bom humor: Ela, Filipa Campos Pato. Eu, Felipe Campos. 

No jantar inteiro, chamou-me a atenção a disposição de Filipa; explica seus vinhos várias vezes, com a mesma paixão, sem frescura, afetação ou "maquilhagem".

Ostras
O Primeiro prato servido foi a dupla de ostras frescas, e o vinho escolhido foi o Filipa Pato 3B rosé, vinho conhecido de longa data, sempre com boa aptidão para frutos do mar (corte de Baga 70% e Bical 30% - o terceiro 'B" fica por conta da Bairrada). Boa harmonização, porém na minha experiência, a afinidade fica ainda melhor com camarão, lulas e polvo acompanhados de molho suave, pela característica mais encorpada do vinho. 





Cru de sardinha

Na sequência, o Cru de sardinha. Bem elaborado, o prato tinha como componente importante a gordura.
Além das notas frutadas de lima e maçã, a mineralidade e a acidez do belo branco FB Bical e Arinto 2014 "cortaram" o prato com elegância, amplificando os sentidos enogastronômicos. Muito bom!







O Polvo à tasquinha foi o prato que veio a seguir, e para mim, o melhor!!
Servido no ponto certo, com batatas e cebola, esse polvo necessitava de um vinho branco à sua altura no quesito corpo. E achou o par perfeito com o complexo Nossa Calcário Branco 2013.
Filipa conta que a primeira palavra pronunciada quando degustavam esse vinho era: "Nossa!"- Então o nome estava escolhido!(detalhe técnico: 100% uvas Bical provenientes de vinhas de mais de 25 anos, fermentado em barricas).
Polvo à tasquinha




E seguiram-se os tintos...

O primeiro tinto, FP Baga 2014, é elaborado com a tinta Baga proveniente de vinhas entre 15 e 80 anos. Não passa por madeira, fermentando em lagares e estagiando em inox por 6 meses. Mantém, portanto, o caráter da varietal, frutado, tanto nos aromas quanto na boca, onde possue uma acidez muito bem equilibrada. Atenção ao preço desse vinho, por volta de R$60,00!!






Costela assada

A Costela Assada com Farofa de Amêndoas, uma delícia, foi bem escoltada pelos tintos, porém aqui o vinho frutado perde um pouco de terreno... Nada que não foi resolvido com a chegada do inicialmente tímido no aroma (recomendo aerar antes de servir por 30 minutos) colossal Nossa Calcário 2010. Este vinho é o símbolo do regate de Filipa às tradições locais; elaborado com uvas de videiras muita antigas da região, colhidas à mão, sem recursos de herbicidas. A vinificação é feita em lagar de carvalho, estagiando mais 18 meses em barricas de carvalho francês (20% novas, 80% usadas). Estupendo após um tempo no copo, com notas complexas de fruta vermelha muito madura, aromas terciários de couro, defumados e se esperasse, com certeza o vinho evoluiria mais, muito mais...



Para finalizar, o saboroso vinho doce FLP 2008, com somente 10% de álcool, fácil de beber, com uma leveza e acidez impressionantes, priorizando o perfil frutado (maçã). Excelente opção para sobremesas não muito doces, à base de frutas, ou mesmo queijos.


E para carimbar o perfil inovador aliado às tradições locais, Filipa brindou-nos com seu raro Espírito de Baga, feito como os vinhos do Poro, com pisa a pé em lagares, e depois de alguns dias a fermentação sendo interrompida com aguardente de... Baga!!(Filipa confessa que procurou muito até achar a aguardente de Baga correspondente ao mesmo ano).
Produzidas somente 1000 garrafas, que evidenciam todos os aromas e sabores de frutas vermelhas e negras em geléia, como amora, groselha, cereja, ameixa, tabaco, especiarias...



Finalizando, se estiver procurando exemplos de vinhos que são um espelho do seu produtor, sem "maquiagem" ou disfarces, e que traduzem sua paixão pela "terrinha" e cuidados com as uvas, minha sugestão é que você experimente os vinhos da Felipa. Não vai se arrepender...
Importados pela Casa Flora.